O nome de Nicolás Otamendi voltou a ser arrastado para o centro da polémica. Não por um erro defensivo, não por uma expulsão, mas por um episódio externo que pode ter impacto direto na sua imagem e, por arrasto, na reputação do Benfica. O motivo? Uma alegada publicação racista atribuída ao irmão do capitão encarnado.
O caso surge num momento particularmente sensível, numa semana em que o universo benfiquista já estava sob tensão devido ao processo disciplinar envolvendo Gianluca Prestianni e Vinícius Júnior. Agora, a situação ganha uma nova dimensão mediática.
Publicação polémica nas redes sociais envolve irmão de Otamendi
A página “Planeta do Futebol” divulgou na rede social X (antigo Twitter) uma imagem alegadamente partilhada por Gabriel Otamendi, irmão de Nicolás Otamendi, em que o jogador do Real Madrid, Vinícius Júnior, surge representado como um macaco. A conta associada ao familiar do defesa central argentino foi entretanto apagada.
Mesmo que a publicação não tenha sido feita pelo próprio atleta do Benfica, a ligação familiar é suficiente para criar danos reputacionais. No futebol moderno, a responsabilidade mediática já não se limita ao que o jogador faz dentro das quatro linhas. O círculo pessoal também pode transformar-se num risco estratégico.
E aqui está o ponto crítico: o Benfica não pode dar-se ao luxo de ver o seu capitão associado, ainda que indiretamente, a um episódio de racismo.
Contexto: o caso Prestianni e Vinícius Júnior
A polémica surge poucos dias depois de Vinícius Júnior ter acusado Gianluca Prestianni, jovem jogador do Benfica, de lhe ter chamado “mono” — termo com conotação racista — após o golo que garantiu a vitória do Real Madrid na Luz.
O caso está nas mãos da UEFA, que suspendeu preventivamente Prestianni do jogo da segunda mão do playoff de acesso aos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. O processo ainda decorre, mas o impacto mediático já está feito.
O presidente da La Liga, Javier Tebas, foi uma das vozes mais recentes a comentar o tema, defendendo que o racismo deve ser erradicado do futebol europeu e que, caso se confirme a culpa do jogador encarnado, a punição deve ser exemplar.
Agora, com esta alegada partilha associada ao irmão de Otamendi, a narrativa mediática ganha combustível.
Nicolás Otamendi: capitão, campeão do mundo e figura institucional
Nicolás Otamendi não é um jogador qualquer. Campeão do mundo pela Argentina no Mundial do Qatar, líder experiente e capitão do Benfica, o defesa central de 38 anos é uma das figuras mais respeitadas do balneário encarnado.
Na presente temporada, o internacional argentino soma 41 jogos oficiais:
• 22 na Liga Portugal Betclic
• 14 na Liga dos Campeões
• 2 na Taça de Portugal
• 2 na Taça da Liga
• 1 na Supertaça
Em 3.645 minutos, marcou três golos e continua a ser peça fundamental no eixo defensivo.
Mas reputação constrói-se ao longo de anos e pode ser abalada em dias.
Racismo no futebol: tolerância zero ou discurso vazio?
O futebol europeu tem tentado reforçar campanhas contra o racismo, mas os casos continuam a surgir com frequência preocupante. O nome de Vinícius Júnior já esteve envolvido em vários episódios em Espanha, onde foi alvo de insultos racistas em diferentes estádios.
Quando um caso envolve um clube como o Benfica e uma competição como a Liga dos Campeões, o impacto é internacional. A marca Benfica não é apenas nacional — é global.
Se o clube não agir de forma rápida e clara, corre o risco de ser visto como permissivo ou complacente, mesmo que o atleta não tenha responsabilidade direta na publicação.
O dilema do Benfica: proteger o capitão ou proteger a imagem?
Aqui está o ponto estratégico: o Benfica tem duas frentes para gerir.
1. Defender institucionalmente o seu capitão, evitando condenações precipitadas.
2. Demonstrar publicamente tolerância zero face a qualquer manifestação racista.
O silêncio prolongado pode ser interpretado como fraqueza. Uma reação exagerada pode fragilizar internamente o balneário.
A solução passa por uma comunicação cirúrgica: condenar o ato, desvincular o jogador de qualquer responsabilidade direta e reafirmar valores institucionais.
Impacto desportivo e psicológico
Embora o episódio seja externo, não é ingénuo pensar que pode afetar o rendimento do atleta. Pressão mediática constante, perguntas incómodas, foco deslocado do campo para as redes sociais — tudo isso desgasta.
Otamendi é experiente, mas também é humano. E quando a narrativa pública começa a associar o seu nome a racismo, mesmo que indiretamente, a pressão aumenta.
Em ano competitivo intenso, com decisões na Liga dos Campeões e no campeonato nacional, qualquer ruído extra é um risco.
Avaliação de mercado e fim de ciclo?
Avaliado atualmente em cerca de 1 milhão de euros, Otamendi aproxima-se do final da carreira. Aos 38 anos, cada polémica pesa mais do que pesaria num jogador jovem com muitos anos pela frente.
A questão que começa a surgir nos bastidores é inevitável: o Benfica deve manter Otamendi como capitão na próxima época? Ou este é o momento ideal para preparar uma transição de liderança?
Não se trata apenas de rendimento desportivo. Trata-se de gestão de imagem, sucessão e posicionamento estratégico do clube.
UEFA, disciplina e precedentes
Com o processo de Prestianni ainda em curso na UEFA, o Benfica está sob escrutínio europeu. A entidade máxima do futebol europeu tem endurecido sanções relacionadas com comportamentos discriminatórios.
Se houver reincidência ou contexto agravado, as consequências podem ir além de suspensões individuais: multas pesadas, jogos à porta fechada ou danos reputacionais duradouros.
Mesmo que Otamendi não seja alvo de qualquer processo, o timing do caso é tudo menos favorável.
Conclusão: crise pontual ou sinal de alerta?
Este episódio pode revelar-se apenas uma tempestade mediática passageira. Mas também pode ser um sinal de alerta sobre a necessidade de maior controlo comunicacional e gestão de imagem no universo Benfica.
O futebol moderno não se joga apenas no relvado. Joga-se nas redes sociais, nas narrativas internacionais e na percepção pública.
Se o clube agir com firmeza e clareza, limita danos. Se hesitar, abre espaço para especulação.
Nicolás Otamendi continua a ser um campeão do mundo, um líder em campo e um símbolo da equipa. Mas num contexto onde o racismo é tema sensível e amplamente debatido, qualquer associação — direta ou indireta — tem potencial explosivo.
Agora, a pergunta não é apenas se o capitão será afetado. A pergunta real é: o Benfica está preparado para gerir crises reputacionais num futebol cada vez mais implacável?

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