A caminhada europeia da equipa feminina de hóquei em patins do Sport Lisboa e Benficacontinua a ser marcada por uma mensagem clara de ambição competitiva. Em mais uma jornada da fase de grupos da WSE Champions League, as encarnadas viajaram até Espanha e impuseram o seu jogo frente ao CP Manlleu, vencendo por expressivos 5-0.
O resultado não foi apenas uma vitória numérica, mas sim a confirmação de uma superioridade técnica, estratégica e mental ao longo de toda a partida. Mesmo atuando fora de portas, o Benfica assumiu desde cedo o controlo do encontro e mostrou que o favoritismo que carregava era sustentado pelo rendimento dentro da pista.
Entrada forte define o tom do encontro europeu
A formação orientada por Paulo Almeida apostou numa pressão ofensiva constante, procurando sufocar a organização defensiva adversária ainda nos primeiros minutos.
O quinteto inicial contou com Lili Buchoux, Marlene Soua, Aimée Blackman, Maria Sofia Silva e Raquel Santos, um conjunto que trouxe equilíbrio entre criatividade ofensiva e segurança defensiva.
Desde os primeiros movimentos, percebeu-se que o Benfica queria evitar qualquer cenário de jogo bloqueado ou de desgaste emocional. A estratégia passou por circulação rápida da bola e procura de espaços nas laterais, explorando a mobilidade das alas e a capacidade de finalização interior.
O adversário tentou responder com linhas defensivas mais recuadas, apostando numa postura de contenção que permitisse retardar o primeiro golo e, quem sabe, explorar contra-ataques rápidos. Durante vários momentos da primeira parte, essa abordagem conseguiu travar as ofensivas encarnadas.
A equipa da casa demonstrou organização defensiva, mas faltou capacidade para manter a intensidade durante períodos prolongados, algo que acabou por ser decisivo perante um adversário com maior profundidade de plantel e qualidade individual.
Apenas um golo ao intervalo não refletia domínio total
O marcador ao intervalo apresentava apenas 1-0, mas o contexto competitivo contava outra história.
O golo inaugural foi apontado por Leonor Coelho, que confirmou a eficácia da linha ofensiva benfiquista numa fase em que a equipa já acumulava várias ocasiões de perigo.
O facto de o Benfica ter chegado ao intervalo com uma vantagem mínima poderia sugerir equilíbrio, porém a realidade dentro da pista mostrava um domínio territorial claro. O problema esteve essencialmente na finalização, com algumas oportunidades desperdiçadas e também com intervenções importantes da guarda-redes adversária.
Do ponto de vista tático, a primeira metade revelou um Benfica paciente, talvez até demasiado conservador na execução de alguns ataques posicionais. A equipa privilegiou a construção progressiva em vez de transições precipitadas, evitando riscos que pudessem expor a retaguarda.
Esta gestão estratégica demonstra maturidade competitiva. Em competições europeias, a diferença entre vitória segura e surpresa negativa está muitas vezes na capacidade de controlar o ritmo do jogo sem ansiedade ofensiva.
Segundo tempo confirma superioridade encarnada
Se havia alguma dúvida sobre o vencedor, ela desapareceu rapidamente na etapa complementar.
O Benfica voltou com outra velocidade competitiva e aumentou a agressividade ofensiva. Aos 28 minutos, Aimée Blackman fez o 2-0, um momento que praticamente abriu o caminho para a goleada.
Pouco depois, foi a vez de Maria Sofia Silva ampliar a vantagem para 3-0, consolidando a superioridade técnica das encarnadas.
A partir deste momento, o encontro perdeu qualquer suspense competitivo. O Benfica passou a dominar não apenas a posse de bola, mas também os duelos individuais e o controlo emocional da partida.
Na reta final, a experiência e eficácia ofensiva voltaram a aparecer através de Leonor Coelho, que bisou no encontro, e de Rita Batista, responsável pelo quinto golo da contagem.
O 5-0 acabou por ser um resultado que espelha melhor o que se passou dentro da pista durante grande parte do tempo.
Liderança do grupo reforça candidatura europeia
Com esta vitória, o Benfica fechou a fase de grupos da melhor maneira possível e garantiu a passagem às eliminatórias da WSE Champions League.
As contas finais colocam a formação encarnada na liderança do Grupo B, somando 14 pontos, com uma margem confortável de sete pontos sobre o segundo classificado, embora o Fraga (roller hockey team) ainda tenha um jogo em atraso.
Este detalhe estatístico é relevante porque demonstra a consistência competitiva do Benfica ao longo de toda a fase de grupos. Não se trata apenas de uma campanha com bons resultados, mas sim de uma trajetória sustentada por domínio coletivo.
O primeiro lugar garante, pelo menos teoricamente, um percurso mais favorável nas próximas rondas, embora nas competições europeias de hóquei patins o fator sorte e o equilíbrio entre equipas sejam variáveis que nunca podem ser descartadas.
Análise tática: equilíbrio entre talento individual e coesão coletiva
O principal mérito desta equipa do Benfica está na forma como combina qualidade individual com funcionamento coletivo.
Jogadoras como Lili Buchoux e Marlene Soua oferecem capacidade de transporte de bola e criação de desequilíbrios, enquanto outras atletas asseguram equilíbrio defensivo e circulação inteligente.
A pressão após perda de bola foi outro aspeto decisivo. Sempre que o Manlleu tentava iniciar transições ofensivas, encontrava rapidamente blocos de contenção que limitavam o progresso adversário.
Além disso, a equipa demonstrou maturidade psicológica. Mesmo com vantagem curta durante grande parte do jogo, não houve sinais de precipitação ou gestão emocional instável.
Em termos estratégicos, a segunda parte revelou uma equipa com leitura competitiva apurada, sabendo exatamente quando acelerar o ritmo e quando controlar a posse para desgastar o oponente.
O que esta vitória diz sobre o Benfica europeu
Esta goleada fora de casa reforça a imagem de que o Benfica está entre as equipas mais consistentes do hóquei feminino europeu.
O crescimento competitivo da formação encarnada nesta modalidade não deve ser visto apenas pelo prisma dos resultados, mas também pela evolução do modelo de jogo e da mentalidade coletiva.
O facto de a equipa manter níveis elevados de rendimento fora de Portugal é particularmente significativo, porque competições europeias costumam expor fragilidades de adaptação a diferentes estilos de jogo.
Neste contexto, o Benfica parece preparado para enfrentar adversários de maior exigência técnica nas fases eliminatórias.
Perspetivas para as eliminatórias europeias
A entrada nas rondas a eliminar da WSE Champions League será o verdadeiro teste à ambição benfiquista.
Se o nível exibicional desta partida se repetir, as encarnadas podem ser consideradas candidatas sérias a um percurso profundo na competição.
Contudo, a fase a eliminar é sempre um território imprevisível. A margem para erro reduz drasticamente e pequenos detalhes podem decidir confrontos de alto nível.
A maior arma do Benfica será provavelmente a sua consistência coletiva aliada à capacidade de várias jogadoras assumirem protagonismo ofensivo.
Um aniversário com sabor europeu
Curiosamente, esta vitória surgiu numa data simbólica para o clube, que celebrava 122 anos de existência, o que acrescenta um valor emocional ao triunfo.
Mais do que uma simples vitória, o resultado reforça a identidade competitiva da equipa feminina e mostra que o investimento na modalidade começa a produzir frutos visíveis.
O hóquei feminino do Benfica assume-se cada vez mais como um projeto europeu de referência, capaz de competir com as melhores formações do continente.
Se a equipa mantiver esta regularidade competitiva, a época pode ainda reservar momentos de grande sucesso internacional.
No panorama atual, o Benfica não joga apenas para ganhar jogos — joga para consolidar estatuto europeu e transformar resultados em história desportiva.

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