A crítica não é subtil e muito menos inocente. Em Espanha, o nome de José Mourinho voltou a ocupar manchetes, mas desta vez longe do pedestal que durante anos o acompanhou. Depois da derrota frente ao Real Madrid por 2-1, a comunicação social do país vizinho decidiu centrar o foco no registo negativo recente do técnico português na Liga dos Campeões. E a narrativa é clara: o “Special One” já não mete medo na Europa.
O debate ganhou força após o jornal MARCA destacar que Mourinho atingiu a marca de dez jogos consecutivos sem vencer em eliminatórias da prova milionária. Um número que, isoladamente, pode parecer circunstancial. Mas no contexto da carreira de alguém que construiu a sua lenda precisamente nas noites europeias, pesa como chumbo.
A pergunta que ecoa em Madrid é simples: o que aconteceu ao estratega que dominava os grandes palcos?
O peso dos números na Liga dos Campeões
Há algo que Mourinho sempre soube fazer: construir narrativa. Quando venceu a Champions com o FC Porto, em 2004, não foi apenas um triunfo inesperado — foi a afirmação de uma identidade competitiva quase obsessiva. Em 2010, repetiu o feito com o Inter de Milão, encerrando um jejum europeu histórico do clube italiano.
Essas conquistas não foram acidentes. Foram resultados de um modelo pragmático, frio e calculista, capaz de sobreviver em ambientes hostis e decidir em detalhes.
Hoje, porém, a estatística é outra. Dez jogos sem vencer em eliminatórias da Champions não é apenas uma sequência negativa; é um padrão recente. E no futebol moderno, padrões criam percepções — e percepções moldam reputações.
A crítica espanhola não se limita a sublinhar os números. Ela questiona a eficácia do modelo atual de Mourinho num futebol que se tornou mais intenso, mais dinâmico e menos tolerante ao conservadorismo extremo.
O contraste entre o passado glorioso e o presente irregular
O próprio MARCA recordou os feitos históricos de Mourinho, mencionando as secas europeias quebradas por Porto e Inter. A comparação, no entanto, é impiedosa. Quanto maior o passado, maior o peso da queda.
É aqui que entra o ponto central: Mourinho construiu a sua marca pessoal com base na vitória em contextos adversos. Quando deixa de vencer nesses contextos, o impacto reputacional é brutal. Ele não é apenas mais um treinador; ele sempre foi vendido como “o diferente”. Quando o diferente passa a apresentar resultados comuns, o discurso entra em colapso.
Ainda assim, reduzir a análise a um ciclo negativo na Champions é simplista. O técnico português conquistou recentemente a Liga Conferência com a AS Roma, provando que continua capaz de montar equipas competitivas em provas europeias. Mas, sejamos francos: a Liga Conferência não tem o peso simbólico nem mediático da Liga dos Campeões.
E é exatamente aí que reside o problema. Mourinho viveu anos no topo da hierarquia competitiva. Qualquer descida de patamar é vista como decadência.
Benfica eliminado e foco total no campeonato
Com a eliminação diante do Real Madrid, o Benfica vira a página europeia e concentra-se totalmente no campeonato nacional. O calendário não dá margem para autocomiseração: deslocação a Barcelos para defrontar o Gil Vicente FC e, logo depois, o clássico frente ao FC Porto.
Este é o momento que separa treinadores comuns de líderes resilientes. A pressão aumenta, a margem de erro desaparece e o ruído externo intensifica-se. Mourinho sabe disso melhor do que ninguém.
Contudo, há um detalhe estratégico importante: o campeonato pode funcionar como escudo. Se conquistar o título nacional, a narrativa muda. Em Portugal, vencer apaga cicatrizes europeias com relativa rapidez. O problema é que a Champions é o palco onde Mourinho construiu a sua identidade global — e é lá que os críticos continuam a medir a sua grandeza.
A crítica espanhola é análise ou oportunismo?
Convém também questionar a origem do ataque mediático. Em Espanha, Mourinho sempre foi uma figura polarizadora, especialmente pelos anos intensos que viveu em Madrid. O seu estilo confrontacional deixou marcas profundas.
Assim, quando a imprensa espanhola aponta o dedo, há sempre uma camada emocional envolvida. Não se trata apenas de estatísticas; trata-se de legado, rivalidades e memória coletiva.
A crítica é legítima? Sim, no plano numérico. Mas também é conveniente. A imprensa vive de narrativas fortes, e poucas histórias vendem tanto quanto a suposta “queda” de um ícone.
O futebol mudou. Mourinho mudou o suficiente?
A questão estratégica que poucos colocam de forma séria é esta: o modelo de Mourinho acompanhou a evolução do jogo?
A Liga dos Campeões atual privilegia equipas que pressionam alto, constroem desde trás com mobilidade constante e mantêm intensidade durante 90 minutos. O pragmatismo defensivo continua a ter espaço, mas exige adaptação e flexibilidade tática.
Mourinho sempre foi mestre na gestão emocional e no detalhe competitivo. Porém, o futebol contemporâneo é menos tolerante a blocos baixos prolongados e a dependência excessiva de transições.
Se o treinador do Benfica quiser recuperar o estatuto europeu, terá de mostrar evolução — não apenas na comunicação, mas na abordagem estratégica.
O veredicto: declínio ou fase transitória?
Falar em declínio definitivo pode ser precipitado. Mourinho já sobreviveu a momentos de contestação antes e respondeu com títulos. A diferença agora é o contexto competitivo mais exigente e a paciência reduzida do mercado.
O registo negativo recente na Liga dos Campeões é factual. A aura mística que o acompanhava nas eliminatórias europeias está, neste momento, enfraquecida. Mas futebol é ciclo, e reputações podem ser reconstruídas com uma campanha sólida.
Para já, a prioridade é clara: estabilizar o Benfica internamente, conquistar consistência no campeonato e reduzir o ruído externo.
Se Mourinho quiser silenciar Madrid, não será com declarações. Será com resultados. Porque, no final, o futebol não respeita passado — respeita quem ganha hoje.

0 Comentários