Kiplimo faz história em Lisboa e bate recorde mundial na Meia Maratona

 


A 35.ª edição da Meia Maratona de Lisboa entrou definitivamente para a história do atletismo mundial. O protagonista foi o fenómeno ugandês Jacob Kiplimo, que assinou uma exibição memorável ao estabelecer um novo recorde mundial da meia maratona, completando os 21,0975 quilómetros em impressionantes 57 minutos e 20 segundos.


O resultado não foi apenas uma vitória numa das provas mais emblemáticas da Europa. Foi também uma afirmação contundente do domínio do atleta africano nas corridas de longa distância e uma resposta clara às dúvidas que tinham surgido nos últimos meses sobre as suas marcas anteriores.


Lisboa foi palco de um momento histórico que reforça o estatuto da prova portuguesa no calendário internacional.



Um novo recorde mundial que confirma o domínio de Kiplimo


A performance de Jacob Kiplimo superou o recorde mundial anterior, que pertencia ao etíope Yomif Kejelcha, estabelecido em 2024 na cidade espanhola de Valência com o tempo de 57.31 minutos.


A diferença pode parecer pequena – apenas 11 segundos –, mas no universo da alta competição esse intervalo representa um salto significativo. Em provas de elite, quebrar um recorde mundial por poucos segundos exige uma combinação quase perfeita de preparação física, estratégia de corrida e condições ideais de percurso.


Curiosamente, esta não foi a primeira vez que Kiplimo esteve ligado ao recorde mundial da distância. Em 2021, o atleta ugandês já tinha sido responsável por uma marca histórica, consolidando-se como um dos corredores mais rápidos de sempre nesta disciplina.


O feito em Lisboa confirma que o atleta continua no topo da hierarquia global das corridas de fundo.



A polémica da marca em Barcelona


O recorde em Lisboa ganha ainda mais peso quando se analisa o contexto recente da carreira de Kiplimo.


Em fevereiro de 2025, durante uma prova em Barcelona, o ugandês chegou a completar a meia maratona em 56.42 minutos, um tempo extraordinário que teria pulverizado qualquer registo anterior.


No entanto, a marca não foi homologada pelas autoridades do atletismo. A razão foi controversa: os organizadores consideraram que o atleta poderia ter sido beneficiado pelo carro marcador de ritmo, que seguia à frente do pelotão.


Essa decisão gerou debate entre especialistas e fãs da modalidade. Alguns defendiam que a ajuda visual do veículo poderia ter influenciado o ritmo de corrida. Outros argumentavam que, independentemente desse detalhe, o desempenho físico continuava a ser extraordinário.


Com o recorde agora confirmado em Lisboa, Kiplimo parece ter colocado um ponto final nessa discussão.



Estratégia perfeita na ponte 25 de Abril


A Meia Maratona de Lisboa é conhecida pelo percurso icónico que atravessa a Ponte 25 de Abril, um cenário que combina paisagem deslumbrante com um percurso tecnicamente rápido.


Para os atletas de elite, trata-se de uma prova que frequentemente oferece condições ideais para grandes marcas.


Kiplimo mostrou inteligência estratégica desde os primeiros quilómetros. Em vez de atacar cedo, manteve um ritmo forte e constante, evitando picos de esforço que pudessem comprometer a fase final da corrida.


A aceleração decisiva surgiu na segunda metade da prova, quando o ugandês começou a distanciar-se do grupo de perseguidores. A partir desse momento, a corrida transformou-se numa luta contra o cronómetro.


Quando cruzou a meta, o relógio confirmou aquilo que o público já suspeitava: um novo recorde mundial estava estabelecido.



Pódio dominado por atletas quenianos


Embora a vitória tenha sido clara, o pódio masculino contou com forte presença do Quénia, país historicamente dominante nas corridas de fundo.


O segundo lugar foi conquistado por Nicholas Kipkorir, que terminou a prova em 58.08 minutos, enquanto o terceiro posto ficou para Gilbert Kiprotich, com 58.59 minutos.


Apesar de não terem ameaçado diretamente o recorde, ambos apresentaram tempos de alto nível competitivo, demonstrando a profundidade do talento africano nesta especialidade.



Samuel Barata foi o melhor português


Entre os atletas portugueses, o destaque foi para Samuel Barata, que terminou na 12.ª posição, sendo o melhor representante nacional na prova masculina.


Embora distante da luta pelo pódio, a classificação revela a dificuldade de competir com a elite mundial nesta disciplina.


O atletismo português tem tradição em provas de fundo, mas nos últimos anos tem enfrentado dificuldades para acompanhar a evolução das potências africanas.


A diferença não está apenas no talento individual. Envolve também fatores estruturais como altitude de treino, programas de desenvolvimento e investimento no atletismo de base.



Vitória etíope na corrida feminina


Se na corrida masculina o protagonismo foi ugandês, na prova feminina o triunfo pertenceu à Etiópia.


A vencedora foi Tsigie Gebreselama, que completou os 21,0975 quilómetros em 1:04.48, um tempo extremamente competitivo.


O segundo lugar ficou com a queniana Janeth Chepngetich, que terminou em 1:06.50, enquanto o terceiro posto foi conquistado por Regina Wambui com 1:07.10.


O domínio africano nas corridas de fundo voltou a ficar evidente também na prova feminina.



Mariana Machado destacou-se na estreia


Entre as portuguesas, a melhor classificada foi Mariana Machado, que terminou na nona posição.


O resultado ganha ainda mais relevância por se tratar da estreia da atleta na distância da meia maratona.


A transição de provas de pista ou distâncias menores para a meia maratona exige adaptação física e tática. Resistência, gestão de ritmo e estratégia tornam-se fatores determinantes.


A performance de Mariana Machado sugere que o atletismo português pode ter uma nova atleta capaz de competir regularmente neste tipo de provas.



Lisboa consolida-se como palco de grandes marcas


A edição deste ano reforça o estatuto da Meia Maratona de Lisboa como uma das provas mais rápidas e prestigiadas do circuito internacional.


Ao longo das últimas décadas, a corrida tem atraído alguns dos melhores atletas do mundo, contribuindo para momentos memoráveis do atletismo global.


O novo recorde mundial de Kiplimo representa não apenas um feito individual extraordinário, mas também um impulso para a reputação internacional da prova portuguesa.


Eventos desta dimensão têm impacto que vai além do desporto: atraem turismo, promovem a cidade e colocam Lisboa no mapa das grandes competições internacionais.



O que significa este recorde para o atletismo mundial


O recorde de Jacob Kiplimo levanta também uma questão importante: até onde pode evoluir o limite humano nas corridas de longa distância?


Nas últimas duas décadas, os tempos da meia maratona e da maratona têm caído de forma constante.


Parte dessa evolução deve-se à ciência do treino, ao desenvolvimento de equipamentos desportivos e à profissionalização crescente do atletismo.


Mas há também um fator incontornável: o surgimento de atletas extraordinários capazes de redefinir os limites da modalidade.


Kiplimo pertence claramente a esse grupo.


Se continuar nesta trajetória, não será surpresa vê-lo quebrar novos recordes nos próximos anos — talvez até aproximar-se de tempos que hoje ainda parecem impossíveis.


E se isso acontecer, Lisboa poderá sempre dizer que foi o palco de mais um capítulo histórico dessa jornada.

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