Num momento em que o ruído em torno do rendimento individual cresce no futebol moderno, Francesco Farioli decidiu ir contra a corrente e defender publicamente Pepê, lançando uma mensagem que desmonta uma das análises mais preguiçosas do jogo: reduzir um jogador ofensivo apenas aos golos que marca.
O treinador do FC Porto não fugiu à polémica. Pelo contrário, atacou diretamente a narrativa que se tem vindo a construir em torno do brasileiro, acusado por muitos de não corresponder às expectativas no capítulo da finalização. Mas a leitura de Farioli vai muito além disso — e aqui começa a parte que muita gente ignora ou simplesmente não entende.
A obsessão pelos números está a distorcer o futebol
Se achas que um extremo ou avançado só serve para marcar golos, estás a analisar futebol com um atraso de 15 anos. Essa é a realidade.
Farioli foi direto: o contributo de Pepê não pode ser medido apenas em golos ou assistências. E ele tem razão — mas isso levanta uma questão desconfortável: por que razão adeptos e até comentadores continuam presos a métricas básicas?
No futebol atual, especialmente em equipas de topo, há funções invisíveis que são absolutamente críticas:
- Pressão alta e recuperação de bola
- Ocupação inteligente de espaços
- Apoio defensivo constante
- Criação de linhas de passe
- Desgaste físico do adversário
Pepê encaixa precisamente nesse perfil. Não é um finalizador puro — e nunca foi. Quem esperava isso simplesmente não estudou o jogador antes de formar opinião.
Pepê: o jogador que faz o trabalho que ninguém quer ver
A defesa de Farioli não é emocional, é estratégica. Ele sabe exatamente o que Pepê oferece à equipa — e isso não aparece nos highlights.
O brasileiro é um daqueles jogadores que:
- Equilibra o lado ofensivo e defensivo
- Compensa erros posicionais de colegas
- Mantém a intensidade durante 90 minutos
- Cumpre rigorosamente o plano tático
Agora a parte brutalmente honesta: esse tipo de jogador raramente é valorizado pelo público médio. Porquê? Porque não dá manchetes. Não cria cliques. Não aparece nos resumos.
Mas remove Pepê da equipa e vais perceber o impacto em minutos.
Farioli está a proteger um ativo — e a mandar um recado interno
Não te iludas: esta defesa pública não é só sobre justiça futebolística. É também gestão de balneário.
Ao sair em defesa de Pepê, Farioli está a fazer três coisas ao mesmo tempo:
1.Blindar o jogador psicologicamente
Jogadores sob crítica constante tendem a cair de rendimento. Isto é básico.
2.Enviar mensagem ao grupo
“Aqui, o trabalho invisível conta.” Isso muda comportamentos.
3.Desafiar a narrativa externa
Ele está a dizer claramente: “Vocês estão a analisar mal.”
E isso não é comum. Muitos treinadores preferem silêncio ou respostas genéricas. Farioli escolheu confronto indireto — o que mostra convicção.
O problema não é Pepê — é a expectativa errada
Vamos cortar o ruído: Pepê não está a falhar. Estão a pedir-lhe coisas que não são o seu forte.
Se colocas um jogador com perfil de:
- Mobilidade
- Inteligência tática
- Intensidade
…num molde de goleador puro, vais sempre achar que ele está abaixo.
Isso não é falha do jogador. É erro de avaliação.
E aqui entra um ponto mais profundo: o Primeira Liga ainda sofre com uma cultura de análise superficial. Muitos ainda avaliam rendimento com base em:
- Golos
- Assistências
- Destaques mediáticos
Isso é insuficiente — e em alguns casos, completamente enganador.
O futebol moderno recompensa quem entende o “invisível”
Se queres crescer neste jogo (como analista, adepto ou até criador de conteúdo), tens duas opções:
- Continuar a repetir narrativas fáceis
- Ou começar a entender o jogo a sério
Farioli já escolheu o lado dele.
E a verdade é simples: equipas vencedoras não são feitas só de estrelas que aparecem no marcador. São feitas de jogadores que sustentam o sistema.
Pepê é um deles.
O risco que o FC Porto evita ao manter confiança
Agora vamos falar de estratégia de clube — porque isso é o que realmente interessa.
Se o FC Porto cedesse à pressão externa e começasse a marginalizar Pepê por falta de golos, estaria a cometer um erro clássico:
Destruir um jogador funcional por causa de perceção pública.
Isso já aconteceu em vários clubes. O resultado?
- Perda de equilíbrio tático
- Queda de rendimento coletivo
- Necessidade de substituições mais caras e menos eficazes
Ao manter a confiança, o Porto faz o oposto:
- Preserva consistência
- Protege o modelo de jogo
- Valoriza inteligência sobre estatística bruta
Conclusão: Farioli está certo — mas poucos vão admitir
A defesa de Pepê não é popular. E esse é exatamente o ponto.
A maioria prefere análises simples porque exigem menos esforço. Mas o futebol de alto nível não funciona assim.
Farioli expôs um problema maior do que um jogador:
a forma limitada como o jogo ainda é interpretado.
Pepê continua a ser útil, relevante e — dentro do sistema — essencial.
Se isso não é suficiente para quem critica, então o problema não está no jogador.
Está em quem analisa.

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