A crise do voleibol do Sport Lisboa e Benfica ganhou contornos ainda mais pesados esta quarta-feira, após nova derrota diante do Sporting Clube de Portugal por 3-0, no terceiro jogo da final da Liga UNA Seguros. No Pavilhão João Rocha, os encarnados voltaram a demonstrar incapacidade competitiva para travar o rival direto e assistiram, impotentes, ao bicampeonato leonino.
Os parciais de 25-18, 25-17 e 25-19 mostram uma realidade dura: o Benfica esteve longe de discutir verdadeiramente o título. Mais do que uma derrota, foi a confirmação pública de que o ciclo vencedor da modalidade terminou. E, nos bastidores da Luz, já ninguém parece acreditar na continuidade de Marcel Matz.
Sporting dominou um Benfica sem reação
O jogo teve um padrão claro desde o primeiro ponto. O Sporting entrou agressivo, organizado e emocionalmente superior. Já o Benfica apresentou exatamente os mesmos problemas que marcaram a temporada: receção instável, dificuldades no bloco e enorme quebra emocional nos momentos de pressão.
A diferença entre as equipas não esteve apenas na qualidade técnica. Este Sporting demonstrou identidade, intensidade e fome competitiva. O Benfica, pelo contrário, pareceu uma equipa cansada, previsível e sem capacidade de resposta.
O mais preocupante para os adeptos encarnados é que esta final praticamente nunca esteve equilibrada. Em vários momentos da série, os leões controlaram o ritmo sem sequer precisarem de atingir níveis extraordinários. Isso expõe um problema estrutural muito maior do que uma simples má noite.
O fim da hegemonia do Benfica no voleibol
Durante anos, o Benfica construiu uma verdadeira hegemonia no voleibol português. Foram cinco épocas de domínio quase absoluto, com títulos consecutivos e uma superioridade evidente sobre a concorrência.
Mas ciclos acabam. E o problema do Benfica foi não perceber isso a tempo.
Enquanto o Sporting investiu na renovação da equipa, aumentou intensidade física e elevou o nível competitivo, o Benfica aparentou acomodação. O plantel perdeu profundidade, algumas referências já não conseguem manter o mesmo rendimento e faltou capacidade para renovar a identidade competitiva da equipa.
Os sinais estavam todos lá ao longo da época.
O Sporting venceu a Supertaça por 3-1. Depois conquistou a Taça de Portugal num duro 3-2. Agora fecha a temporada nacional com o campeonato e um categórico 3-0 na final decisiva. Isto não é um acidente. É domínio.
E quando um rival ganha tudo numa única época, a conversa deixa de ser “má fase”. Passa a ser falhanço desportivo.
Marcel Matz ficou refém do título
A situação de Marcel Matz já vinha fragilizada há vários meses. Internamente, a conquista do Campeonato Nacional era vista como condição essencial para a continuidade do técnico brasileiro.
Falhou.
E falhou da pior forma possível: sem conseguir competir até ao limite contra o principal rival.
No desporto de alta exigência, o contexto importa. O Benfica não investe para terminar em segundo lugar. Muito menos para perder sucessivamente todos os troféus importantes frente ao Sporting.
Marcel Matz teve mérito no passado e ajudou a construir uma era vencedora, mas o desgaste tornou-se evidente. A equipa perdeu agressividade, perdeu capacidade de reação e, sobretudo, perdeu aura competitiva.
Há outro detalhe importante que muitos ignoram: equipas em declínio mostram sintomas emocionais antes dos resultados finais. O Benfica desta temporada parecia frequentemente uma equipa insegura, sem liderança forte em campo e vulnerável quando sofria sequências negativas de pontos.
Isso também é responsabilidade técnica.
Plantel do Benfica deve sofrer revolução
A derrota na final não deverá provocar apenas mudança no comando técnico. O plantel encarnado também deverá entrar numa profunda reformulação.
Existem jogadores que chegaram ao limite do ciclo competitivo no clube. Outros não corresponderam às expectativas. E há ainda a questão física, que se tornou evidente em vários jogos decisivos da época.
O Benfica precisa de tomar uma decisão estratégica: continuar preso ao passado ou reconstruir a modalidade com ambição real.
Porque há um erro recorrente em clubes grandes: acreditar que o estatuto ganha jogos sozinho.
Não ganha.
O Sporting apresentou uma equipa mais intensa, mais rápida e mentalmente mais preparada. O Benfica ficou preso a um modelo menos dinâmico e demasiado dependente de momentos individuais.
Sem mudanças profundas, o risco é ainda maior: transformar um ciclo negativo numa crise prolongada.
A pressão vai aumentar na Luz
O voleibol pode não ter a dimensão mediática do futebol, mas continua a ser uma modalidade histórica no Benfica. E perder três títulos para o maior rival na mesma temporada cria inevitavelmente desgaste interno.
Os adeptos aceitam perder ocasionalmente. O que não aceitam é passividade competitiva.
E foi exatamente isso que o Benfica transmitiu nesta final.
A direção encarnada sabe que não pode apresentar a próxima temporada com pequenas alterações cosméticas. O contexto exige decisões fortes. Desde logo, a escolha do próximo treinador será determinante para definir se o clube pretende apenas “competir” ou recuperar domínio.
Porque a realidade atual é desconfortável para os encarnados: neste momento, o Sporting parece claramente mais forte, mais moderno e mais preparado para continuar a ganhar.
Convocados do Benfica para o dérbi decisivo
Marcel Matz apostou nos seguintes jogadores para o encontro decisivo frente ao Sporting:
Francisco Pombeiro, Nivaldo Gómez, Pablo Natan, Lucas França, Kelvi Geovani, Murad Khan, Ivo Casas, Peter Wohlfahrtstätter, Felipe Banderó, Tomás Teixeira, Japa, Diogo Fevereiro, Valerii Todua e Bernardo Silva.
Apesar da profundidade do grupo, a equipa voltou a demonstrar dificuldades coletivas evidentes, sobretudo nos momentos de maior pressão competitiva.
Benfica entra num verão decisivo
O próximo mercado será decisivo para o futuro da modalidade na Luz.
O Benfica tem duas opções: reagir de forma agressiva e reconstruir uma equipa capaz de recuperar títulos rapidamente, ou insistir numa base desgastada emocional e competitivamente.
O problema é que o Sporting já não parece um rival passageiro. Parece uma estrutura preparada para dominar.
E essa talvez seja a conclusão mais dura para os adeptos encarnados: o Benfica deixou de ser referência absoluta no voleibol português.
Agora terá de provar que ainda sabe como voltar ao topo.

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