O mercado de janeiro aproxima-se e o Benfica volta a olhar para o futebol brasileiro… via Arábia Saudita. Wesley, extremo de 23 anos do Al Nassr, está no radar da estrutura encarnada, com conversações já em andamento entre os dois clubes. A informação foi avançada pelo Maisfutebol, mas o cenário merece uma leitura mais fria e estratégica: este não é um negócio óbvio, nem isento de riscos.
O jogador, que também foi recentemente associado ao Sporting, está na lista de negociáveis do Al Nassr, num contexto muito específico: Jorge Jesus precisa libertar uma vaga de estrangeiro no plantel e já deu luz verde para a saída do brasileiro. A questão central não é se Wesley pode sair. É em que condições e se faz sentido para o Benfica.
Wesley: talento caro, impacto curto e estatuto de suplente
Formado no Corinthians, Wesley chegou ao Al Nassr na temporada passada, num investimento pesado a rondar os 20 milhões de euros. Foi contratado como aposta de impacto imediato, mas a realidade foi bem menos exuberante. O extremo nunca se impôs como titular indiscutível e acabou empurrado para um papel secundário numa equipa recheada de estrelas e opções ofensivas.
Este detalhe não é menor. Um jogador que custa 20 milhões e passa a suplente em apenas uma época levanta duas hipóteses — ou foi mal enquadrado, ou não correspondeu ao que se esperava. Provavelmente, um pouco de ambos. E é aqui que o Benfica tem de ser brutalmente racional: não pode pagar preço de estrela por um jogador que perdeu estatuto.
Benfica procura desequilíbrio, mas não pode repetir erros recentes
O interesse do Benfica em Wesley encaixa num padrão claro: procurar extremos jovens, rápidos, com capacidade de desequilíbrio no um contra um. O problema é que este perfil tem sido recorrente… e nem sempre bem-sucedido. O clube já investiu forte em alas que demoraram demasiado tempo a render — ou nunca renderam.
Wesley é tecnicamente evoluído, agressivo no ataque aos espaços e confortável em sistemas de transição rápida. Mas o futebol do Benfica exige mais do que isso: pede consistência, leitura tática e impacto imediato. Um jogador que chega como “aposta” precisa justificar minutos rapidamente. Não há muito espaço para adaptação longa, sobretudo numa equipa que vive sob pressão constante.
Jorge Jesus facilita, mas não oferece descontos emocionais
O aval de Jorge Jesus à saída do jogador não deve ser romantizado. JJ precisa libertar uma vaga de estrangeiro e otimizar o plantel. Wesley é um ativo negociável, não um intocável. Isso abre margem ao Benfica, mas não significa saldo automático.
O Al Nassr não vai querer assumir um prejuízo total. O cenário mais provável passa por um empréstimo com opção de compra, ou uma venda abaixo do valor investido, mas ainda assim relevante. E aqui surge a pergunta incómoda: vale a pena investir vários milhões num jogador que nem Jorge Jesus considera prioritário?
Sporting esteve atento, mas Benfica mexe-se primeiro
O facto de Wesley também ter sido alvo do Sporting acrescenta um elemento competitivo à equação. Os leões seguem atentos ao mercado brasileiro e a oportunidades fora da Europa tradicional, mas tudo indica que foi o Benfica quem avançou de forma mais concreta.
Ainda assim, convém relativizar. Interesse não significa prioridade máxima. Muitas vezes, estes nomes surgem como alternativas A, B ou C, dependendo de saídas e encaixes financeiros. O Benfica está a explorar o terreno, não a fechar o negócio a qualquer custo.
Contrato até 2028: vantagem negocial… para quem?
Wesley tem contrato com o Al Nassr até junho de 2028, o que à primeira vista dá força ao clube saudita. No entanto, a realidade do futebol saudita é diferente: há pressão para resultados imediatos, gestão de vagas de estrangeiros e pouca paciência para ativos que não rendem desportivamente.
Isso joga a favor do Benfica. Um jogador sem estatuto de titular, com salário elevado e ocupando espaço no plantel é um problema, não uma garantia. O clube da Luz sabe disso e tentará explorar essa fragilidade negocial.
O risco escondido: salário e motivação
Há um ponto que muitos ignoram deliberadamente: o salário. Jogadores vindos da Arábia Saudita chegam com padrões salariais inflacionados. Se Wesley não aceitar uma redução significativa, o negócio morre aí. O Benfica não pode — nem deve — quebrar a sua estrutura salarial por um extremo que chega sem provas dadas na Europa.
Outro fator crítico é a motivação. Wesley quer relançar a carreira ou apenas mudar de cenário? Está disposto a competir, a começar no banco, a provar valor? Sem isso, o talento cru não chega.
O que está realmente em jogo para o Benfica
Este possível negócio não é apenas sobre Wesley. É um teste à maturidade estratégica do Benfica no mercado. Ou o clube aprende com erros passados e negocia com frieza, ou volta a cair na tentação do “potencial” caro e incerto.
Se vier por valores controlados, com salário ajustado e margem de valorização futura, pode ser uma aposta inteligente. Se vier como investimento pesado, baseado em expectativa e não em rendimento, é mais um risco desnecessário.
Janeiro será decisivo, mas sem margem para impulsos
O mercado de janeiro é curto, inflacionado e cheio de armadilhas. Wesley é um nome interessante, mas não incontornável. O Benfica não pode confundir oportunidade com urgência.
Há talento ali? Sim. Há garantias? Nenhuma. E clubes grandes não vivem de fé, vivem de decisões bem calculadas.
