O futebolista marroquino Adel Taarabt, antigo jogador do Benfica, foi operado no Porto a uma lesão no ligamento cruzado anterior de um joelho, numa intervenção conduzida pelo reputado médico português João Espregueira Mendes. Aos 36 anos, o médio do Al Sharjah enfrenta mais um obstáculo pesado numa carreira marcada por talento raro, decisões discutíveis e um desgaste físico que já não perdoa.
A cirurgia decorreu sem complicações, segundo informações divulgadas pelo clube dos Emirados Árabes Unidos e pela clínica responsável. Ainda assim, a questão central não é a operação em si, mas sim o que este episódio representa para o futuro de um jogador que viveu sempre no limite entre o génio e a irregularidade.
Operação no Porto confirma confiança na medicina portuguesa
Não é por acaso que Adel Taarabt viajou até Portugal para ser operado. O Porto tornou-se, há vários anos, um dos centros de referência para cirurgias ortopédicas em atletas de alta competição, especialmente em lesões graves como a rotura do ligamento cruzado anterior.
João Espregueira Mendes é um nome recorrente quando se fala de cirurgias complexas no futebol profissional. A escolha do médico revela prudência e consciência da gravidade do problema. Aos 36 anos, qualquer erro na recuperação pode significar o fim precoce da carreira.
O Al Sharjah confirmou oficialmente que a cirurgia foi bem-sucedida e que o jogador já iniciou o programa de reabilitação. O discurso é otimista, como manda o protocolo, mas a realidade é bem mais dura.
Uma lesão que pesa mais aos 36 do que aos 26
Lesões no ligamento cruzado anterior são hoje comuns no futebol moderno, mas continuam a ser potencialmente devastadoras, sobretudo em atletas veteranos. O tempo de recuperação raramente é inferior a seis meses e o regresso ao nível competitivo anterior não é garantido.
No caso de Taarabt, o contexto agrava-se: trata-se de um jogador cuja principal arma sempre foi a explosão, a capacidade de mudança rápida de direção e o improviso em espaços curtos. Tudo aquilo que mais sofre após uma lesão deste tipo.
Ignorar este fator seria ingenuidade. A idade não mente e o corpo, mais cedo ou mais tarde, cobra tudo o que foi exigido durante anos sem grande preocupação com a longevidade.
Último jogo foi em novembro e já levantava sinais de alerta
Adel Taarabt não joga desde 4 de novembro, data da derrota do Al Sharjah por 3-0 frente ao Al Ittihad, em jogo da Liga dos Campeões asiática. Desde então, o silêncio competitivo foi quebrado apenas agora, com a confirmação da cirurgia.
A ausência prolongada já indicava que não se tratava de uma simples lesão muscular ou de um problema menor. O atraso na operação sugere tentativa inicial de tratamento conservador, algo comum, mas que nem sempre resulta quando o dano estrutural é significativo.
Neste ponto da carreira, cada semana perdida é um risco acrescido. O calendário não abranda e o mercado não espera.
A passagem pelo Benfica ainda define a imagem de Taarabt
Apesar de já não jogar em Portugal há vários anos, Adel Taarabt continua a ser apresentado como “ex-Benfica”. Isso diz muito sobre o impacto — e as contradições — da sua passagem pela Luz.
No Benfica, Taarabt viveu dois extremos: da irreverência que conquistou adeptos à inconsistência que dividiu treinadores e dirigentes. Teve momentos de brilhantismo absoluto, jogos em que parecia jogar noutro ritmo, mas nunca conseguiu transformar esse talento em rendimento constante ao longo de várias épocas.
Essa incapacidade de estabilizar o seu nível competitivo é uma das razões pelas quais, aos 36 anos, se encontra a jogar fora do grande centro do futebol europeu.
Carreira rica em talento, pobre em continuidade
É impossível falar de Adel Taarabt sem tocar no tema da gestão de carreira. O marroquino teve tudo para marcar uma geração: técnica apurada, criatividade acima da média e personalidade forte. O problema é que raramente juntou tudo isso com disciplina, regularidade e visão estratégica de longo prazo.
Passou por Inglaterra, Itália, Portugal e agora Médio Oriente, sempre com a sensação de que podia ter ido mais longe. Hoje, essa perceção já não é discussão de café — é um facto consolidado.
A lesão no joelho surge como símbolo final dessa trajetória: o talento levou-o longe, mas não o suficiente para proteger o corpo de uma utilização intensa e, por vezes, mal gerida.
O futuro no Al Sharjah está longe de ser garantido
Embora o Al Sharjah tenha desejado publicamente uma rápida recuperação ao jogador, é ingénuo assumir que o seu lugar no plantel está assegurado. Clubes do Médio Oriente são pragmáticos: enquanto rendes, ficas; quando deixas de render, tornas-te um ativo dispensável.
Uma recuperação lenta ou incompleta pode colocar Taarabt numa posição delicada nas próximas janelas de mercado. Aos 36 anos, já não há margem para projetos de reconstrução longos.
Ou volta rápido e competitivo, ou o declínio acelera.
Reabilitação será o verdadeiro teste
Mais do que a cirurgia, será o processo de reabilitação que definirá o futuro de Adel Taarabt. Disciplina, rigor diário, controlo de peso, fortalecimento muscular e adaptação do estilo de jogo são agora obrigatórios, não opcionais.
Aqui reside uma das grandes incógnitas: conseguirá um jogador historicamente associado à improvisação e ao instinto aceitar a frieza e monotonia de uma reabilitação exigente?
Sem esse compromisso total, a recuperação será apenas parcial — e parcial, neste contexto, equivale a insuficiente.
Um aviso claro para o futebol moderno
O caso de Adel Taarabt serve também como alerta para o futebol atual: talento sem gestão não garante longevidade. O corpo tem memória e, quando falha, não distingue génios de jogadores comuns.
A operação no Porto pode prolongar a carreira do médio marroquino, mas dificilmente apagará a sensação de que estamos a assistir aos capítulos finais de uma história que prometeu mais do que entregou.
Resta saber se Taarabt ainda terá forças — físicas e mentais — para contrariar o guião que o tempo parece já ter escrito.
