O FC Porto está prestes a ressuscitar uma tradição com mais de 15 anos: o treino aberto no Estádio do Dragão no dia 1 de janeiro. Um gesto simbólico, emocional e mediático que esteve adormecido por opção técnica e constrangimentos de calendário, mas que agora volta a fazer sentido — não por nostalgia, mas por contexto. E o contexto é claro: um clube que precisa de reconectar com os adeptos, reforçar identidade e controlar a narrativa.
Tudo indica que há margem logística para o regresso deste momento especial. A equipa desloca-se aos Açores apenas a 4 de janeiro, antes de seguir para estágio, o que abre uma janela perfeita para recuperar um evento que, durante anos, foi uma verdadeira festa azul e branca.
Mas convém dizer as coisas como elas são: este possível regresso não é apenas um gesto de boa vontade. É também uma decisão estratégica.
Uma tradição que nunca foi apenas um treino
Durante mais de uma década, o treino aberto no Dragão no primeiro dia do ano foi um ritual quase sagrado para os portistas. Bancadas abertas, famílias inteiras, crianças com cachecóis demasiado grandes e um clube que, pelo menos por um dia, parecia verdadeiramente acessível.
O desaparecimento desta tradição não foi inocente nem irrelevante. Foi uma escolha. Uma escolha que coincidiu com uma progressiva distância entre estrutura, equipa e adeptos. Menos momentos de proximidade, mais muros invisíveis. Menos clube popular, mais organização fechada sobre si própria.
Trazer o treino aberto de volta é reconhecer, ainda que implicitamente, que algo se perdeu pelo caminho.
Regresso ao Dragão: gesto simbólico num momento sensível
O FC Porto vive uma fase em que cada detalhe conta. Resultados sob escrutínio, decisões técnicas constantemente debatidas e um ambiente externo que já não vive apenas de vitórias passadas. Neste cenário, recuperar uma tradição histórica é também uma forma de reforçar a ligação emocional com a massa adepta.
Não é altruísmo. É inteligência emocional aplicada ao futebol.
Abrir o Dragão no dia 1 de janeiro permite:
• Criar uma narrativa positiva num período sensível da época
• Aproximar jogadores e adeptos sem riscos competitivos
• Reforçar o sentimento de pertença antes de um ciclo exigente
• Mostrar abertura num clube frequentemente acusado de fechamento
Ignorar isto seria ingenuidade. Ou arrogância.
Alverca recebe o FC Porto com casa cheia
Antes de qualquer treino aberto, há futebol a sério. Esta segunda-feira, em Alverca, o FC Porto disputa a 15.ª jornada da I Liga, com início marcado para as 18h45. E o cenário não é indiferente: esperam-se cerca de quatro mil adeptos portistas no Ribatejo.
Quatro mil. Fora de casa. Num jogo teoricamente “menor”.
Este número diz muito mais sobre os adeptos do que sobre o clube. Mostra que o apoio existe, é resiliente e não depende apenas de títulos ou momentos de euforia. A questão que se impõe é outra: o clube tem estado à altura dessa lealdade?
A agenda permite, a vontade decide
Com o jogo nos Açores agendado apenas para 4 de janeiro e o estágio a seguir, o argumento do calendário cai por terra. Se o treino aberto não acontecer, não será por falta de tempo. Será por falta de vontade ou por receio de exposição.
E esse receio, se existir, é revelador.
Clubes confiantes não fogem dos seus adeptos. Clubes seguros da sua liderança e do seu projeto não têm medo de abrir portas, nem sequer em momentos de maior pressão.
Se o FC Porto optar por não recuperar esta tradição, a mensagem será clara — mesmo que ninguém a diga em voz alta.
Marketing emocional ou reconexão genuína?
Há quem veja o possível treino aberto como uma jogada de marketing. E não está errado. Mas isso não o invalida. O futebol moderno vive de emoções, símbolos e gestos públicos. A diferença está na coerência: se o evento for isolado, será oportunismo; se marcar o início de uma nova postura, será inteligência estratégica.
Os adeptos não são ingénuos. Sentem quando algo é feito por convicção ou por desespero comunicacional. Um Dragão cheio no dia 1 de janeiro só fará sentido se vier acompanhado de sinais claros ao longo da época.
Caso contrário, será apenas uma fotografia bonita para redes sociais.
O risco de não fazer nada é maior
Manter tudo como está é o maior risco. Ignorar tradições, afastar adeptos e tratar o apoio como garantido é uma estratégia que falha — sempre. Mais cedo ou mais tarde, a fatura chega.
O FC Porto construiu-se como clube popular, combativo e próximo da sua gente. Cada passo em sentido contrário cobra um preço invisível, mas real.
Recuperar o treino aberto não resolve problemas desportivos. Não ganha pontos. Não marca golos. Mas cria algo que tem faltado: ligação emocional num momento em que o clube precisa de todos.
Conclusão: mais do que um treino, um teste de sensibilidade
O possível regresso do treino aberto de Ano Novo no Estádio do Dragão é mais do que um evento simbólico. É um teste à sensibilidade da estrutura, à leitura do momento e à capacidade de perceber que futebol não se gere apenas com tática e números.
Com milhares de adeptos esperados em Alverca e uma agenda que permite abrir o Dragão a 1 de janeiro, o FC Porto está perante uma escolha simples, mas reveladora.
Ou abraça a sua história e a sua gente — ou continua a afastar-se, acreditando que o silêncio nas bancadas é normal.
E não é.
