O Benfica não está à espera do fim da época para decidir o futuro do basquetebol. O planeamento já começou e há uma prioridade clara na mesa da Direção liderada por Rui Costa: garantir a continuidade de Norberto Alves no comando técnico das águias. A intenção de renovar contrato com o treinador surge como um sinal forte de confiança, mas também levanta uma questão inevitável — trata-se de visão estratégica ou de conforto institucional?
Neste Exclusivo Glorioso 1904, fica claro que a estrutura encarnada vê no atual técnico a peça-chave para sustentar o projeto vencedor no Pavilhão da Luz. A decisão não nasce do acaso, mas de resultados concretos. Ainda assim, renovar não pode ser apenas um prémio pelo passado. Tem de ser um compromisso com exigência futura.
Supertaça reforça estatuto, mas não fecha o debate
A recente conquista da Supertaça Mário Saldanha, com um triunfo esmagador frente ao FC Porto (91-65), foi mais do que um troféu. Foi uma afirmação pública de poder. Em Coimbra, o Benfica não ganhou apenas — dominou, humilhou taticamente o rival e deixou uma mensagem clara ao panorama nacional.
Norberto Alves montou uma equipa intensa, disciplinada e agressiva nos dois lados do campo. Mérito total do treinador. Mas aqui entra o primeiro ponto que não pode ser ignorado: o basquetebol português continua frágil em termos competitivos. Ganhar internamente é obrigatório para o Benfica. O verdadeiro teste não é Coimbra — é a Europa.
Usar a Supertaça como argumento único para uma renovação longa seria um erro estratégico. Usá-la como confirmação de um caminho, isso sim, faz sentido.
Rui Costa aposta na estabilidade — e faz bem, até certo ponto
A Direção encarnada olha para Norberto Alves como o garante da estabilidade desportiva da modalidade. Depois de anos de avanços e recuos, o Benfica encontrou um treinador com identidade, capacidade de liderança e leitura do clube. Isso conta. Muito.
Mas estabilidade sem evolução transforma-se rapidamente em acomodação. Rui Costa sabe disso. A renovação que está a ser preparada não pode ser um cheque em branco nem um gesto emocional. Tem de vir acompanhada de metas claras: domínio interno e crescimento europeu mensurável.
Fontes próximas do processo garantem que as negociações decorrem num clima sereno e sem entraves relevantes. Há vontade de ambas as partes. Ótimo. Agora falta a parte mais difícil: definir o nível de ambição real.
Os números de Norberto Alves: sólidos, mas não intocáveis
Desde que assumiu o comando técnico do basquetebol do Benfica, Norberto Alves realizou 227 jogos oficiais. O saldo é positivo: 175 vitórias e 52 derrotas. Percentagem elevada, palmarés respeitável e quatro Campeonatos Nacionais conquistados.
Estes números justificam confiança. Não justificam veneração cega.
O Benfica, pela sua dimensão, orçamento e massa crítica, tem obrigação de ganhar em Portugal. A avaliação séria do trabalho do técnico começa quando se analisa a capacidade de reinventar a equipa, desenvolver jogadores, resistir à pressão e competir fora de portas.
Até agora, o projeto tem sido competente. Falta-lhe, contudo, um salto europeu consistente para ser verdadeiramente incontestável.
Continuidade faz sentido, mas o contrato tem de ser exigente
Renovar com Norberto Alves é, neste momento, a decisão lógica. Qualquer alternativa implicaria risco desnecessário e quebra de continuidade num projeto que funciona. Mas Rui Costa não pode repetir erros do futebol — contratos longos, sem cláusulas de desempenho, baseados apenas em gratidão.
A renovação deve incluir:
• Objetivos europeus claros
• Valorização de ativos (jogadores nacionais e jovens)
• Atualização constante do modelo de jogo
• Capacidade de adaptação a novos contextos competitivos
Sem isso, o Benfica corre o risco de dominar internamente… e estagnar estruturalmente.
O que está realmente em causa no basquetebol do Benfica
Este não é apenas um tema de treinador. É uma questão de posicionamento estratégico do clube. O Benfica quer ser apenas o maior em Portugal ou quer afirmar-se como projeto respeitado na Europa?
Norberto Alves pode ser o homem certo para essa missão. Mas só o será se também ele sair da zona de conforto. Ganhar campeonatos já não chega. O padrão de exigência subiu — e ainda bem.
A renovação que Rui Costa prepara deve ser lida como um compromisso bilateral: o clube dá confiança, o treinador entrega crescimento. Qualquer coisa abaixo disso é insuficiente para um emblema que se diz ambicioso.
Conclusão: decisão certa, desde que não seja passiva
Tudo aponta para um desfecho rápido e positivo nas negociações. O chamado “fumo branco” está próximo. E, neste contexto, faz sentido que esteja.
Mas que fique claro: renovar não é fechar um ciclo — é abrir outro. Se Rui Costa usar esta renovação para elevar o patamar da modalidade, a decisão será recordada como estratégica. Se for apenas um gesto de conforto, será apenas mais uma oportunidade desperdiçada.
O basquetebol do Benfica tem bases sólidas. Agora precisa de visão, coragem e exigência real.
