Andreas Schjelderup está cada vez mais perto de abandonar o Benfica neste mercado de inverno, num movimento que diz muito mais sobre a gestão desportiva das águias do que apenas sobre o futuro imediato do jovem norueguês. Fora das contas de José Mourinho e sem minutos relevantes desde 17 de dezembro, frente ao Farense, o extremo prepara-se para rumar ao Parma por empréstimo até ao final da temporada, numa operação carregada de nuances estratégicas, riscos e contradições.
O negócio só se tornou possível graças à venda definitiva de David Jurásek, que libertou uma vaga regulamentar para cedências internacionais. Um detalhe técnico, mas revelador: sem essa saída prévia, Schjelderup estaria “preso” ao plantel, mesmo sem espaço real para jogar. Isto não é planeamento — é reação tardia.
Schjelderup fora das contas de Mourinho: decisão técnica ou desperdício de talento?
Quando José Mourinho chegou ao Benfica, uma das grandes interrogações era simples: que papel teriam os jovens talentos acumulados nos últimos mercados? Schjelderup rapidamente percebeu a resposta. Apesar do estatuto de promessa e do investimento feito, nunca conseguiu tornar-se opção regular.
O norueguês não entra nas contas do treinador, e isso é um facto objetivo. A última utilização significativa remonta a dezembro, e desde então o jogador caiu numa espécie de limbo competitivo. Não é coincidência: Mourinho privilegia impacto imediato, consistência tática e maturidade competitiva. Schjelderup, ainda em processo de afirmação, não encaixa nesse perfil — pelo menos para já.
Aqui surge o primeiro problema estrutural: o Benfica comprou um jogador para um projeto que já não existe. A aposta foi feita num contexto técnico diferente, com outra visão de jogo e outro horizonte temporal. Hoje, o ativo está desvalorizado em termos desportivos, mesmo mantendo valor de mercado teórico.
O Parma entra em cena: oportunidade ou risco camuflado?
O Parma identificou desde cedo Schjelderup como um reforço prioritário. O clube italiano quer criatividade, imprevisibilidade e juventude para atacar a segunda metade da época. Até aqui, tudo lógico. O problema está nos moldes do negócio.
A direção do Parma só aceita a operação via empréstimo com opção de compra. Traduzindo: querem testar sem compromisso real. Para o Benfica, isto é um sinal claro de desconfiança quanto ao impacto imediato do jogador no futebol italiano.
Ainda não são conhecidos os valores exatos da cláusula nem se esta será obrigatória. E esse detalhe não é menor — é decisivo. O Benfica pretendia encaixar entre 15 e 20 milhões de euros com Schjelderup. Se aceitar uma opção baixa ou não obrigatória, estará a assumir dois riscos simultâneos: desvalorização futura e perda de controlo negocial.
Regulamentos, vagas e improviso: o papel da saída de Jurásek
A venda de David Jurásek foi o gatilho burocrático que desbloqueou toda a operação. Sem essa transferência definitiva, o Benfica não poderia emprestar Schjelderup para o estrangeiro devido ao limite de vagas internacionais de cedência temporária.
Este ponto expõe uma realidade desconfortável: o clube gere ativos de milhões com margem mínima de manobra regulamentar. Não havia plano B. Ou saía Jurásek, ou Schjelderup ficava encostado até junho, a perder valor e ritmo competitivo.
Isto não é gestão proativa de ativos. É apagar incêndios com gasolina. O Benfica chegou a janeiro sem flexibilidade suficiente para decidir livremente o futuro de um jogador que custou caro e continua a ser visto como promessa.
Números da época: produção modesta para quem queria ser protagonista
Na presente temporada, Andreas Schjelderup realizou 21 jogos pelo Benfica, distribuídos por todas as competições:
• 11 na Liga Portugal Betclic
• 6 na Liga dos Campeões
• 3 na Taça de Portugal
• 1 na Taça da Liga
Em 969 minutos, marcou dois golos e fez três assistências. Números frios, mas reveladores. Para um jogador avaliado em 14 milhões de euros, o impacto foi claramente abaixo do esperado.
Aqui não vale romantizar. Não é perseguição, não é azar, não é apenas falta de oportunidades. Quando entrou, raramente mudou jogos. Faltou agressividade, intensidade e regularidade. Talento existe, mas futebol de alto nível exige mais do que potencial.
Análise estratégica: quem ganha e quem perde com este empréstimo?
O Parma ganha tempo e margem de erro. Se Schjelderup explodir, compra. Se não resultar, devolve. Simples.
O jogador ganha minutos, exposição e a hipótese de se afirmar num contexto menos pressionante do que a Luz. Para ele, é provavelmente a melhor saída possível neste momento.
O Benfica? Assume riscos claros. Um empréstimo sem obrigação de compra, com valores indefinidos, num campeonato competitivo, pode tanto relançar o ativo como enterrá-lo de vez. E se o Parma não exercer a opção? O jogador regressa em junho, mais um ano de contrato queimado, mais um problema para resolver.
Opinião: o Benfica precisa decidir o que quer ser no mercado
O caso Schjelderup é sintomático de um problema maior. O Benfica oscila entre clube formador, vendedor de talento e equipa que quer resultados imediatos. Não dá para ser tudo ao mesmo tempo sem fricção.
Comprar jovens caros para projetos de médio prazo e depois entregar o comando técnico a um treinador de curto prazo é incoerente. Alguém vai perder — e normalmente é o jogador.
Se o Benfica aceitar um empréstimo “mole”, sem garantias financeiras sérias, estará a admitir que errou na aposta e que agora apenas tenta minimizar danos. Se, pelo contrário, conseguir uma opção de compra próxima dos valores desejados, então o risco passa a ser calculado.
Uma coisa é certa: Schjelderup não sai por excesso de concorrência. Sai porque o clube não construiu um caminho claro para ele. E no futebol moderno, talento sem plano é só custo à espera de desvalorização.
