Benfica prepara revolução no andebol e sueco desconhecido pode assumir comando

 


O nome de Anders Hallberg começou a circular com insistência nos bastidores do Sport Lisboa e Benfica e não é por acaso. O treinador sueco, atualmente ao comando do Kristianstad HK, surge como o principal candidato a assumir o andebol das águias na próxima temporada, numa altura em que a estrutura encarnada prepara uma mudança estrutural profunda na modalidade.


A saída de Jota González no final da época abre espaço para um novo ciclo. Mas mais do que uma simples troca de treinador, o que se desenha na Luz é uma redefinição estratégica. O Benfica quer recuperar hegemonia interna e ganhar outra dimensão europeia. E para isso, precisa de mais do que discursos ambiciosos.



Um perfil jovem para um projeto de médio prazo


Com 39 anos, Hallberg encaixa num padrão cada vez mais valorizado no andebol europeu: treinador jovem, com mentalidade moderna, forte leitura tática e experiência competitiva enquanto jogador. Antigo central, conhece a exigência da posição que pensa o jogo e comanda ritmos — algo que se reflete nas suas equipas, conhecidas por organização ofensiva e transições rápidas.


O facto de liderar o Kristianstad, um clube habituado a contextos competitivos exigentes na Suécia e na Europa, reforça a ideia de que o técnico está preparado para desafios maiores. O contacto recente com o Benfica, quando as duas equipas se defrontaram na Main Round da EHF European League, também facilitou aproximações informais.


Mas aqui é preciso separar entusiasmo de realidade.


Hallberg tem contrato por mais uma época e foi claro nas declarações ao jornal sueco Sportbladet: há interesse, mas o foco mantém-se no Kristianstad. Tradução estratégica? Ele não vai forçar saída. Se o Benfica o quer, terá de apresentar um projeto sólido — desportivo e financeiro.



Benfica precisa de mais do que um novo treinador


O andebol do Benfica vive há demasiado tempo numa zona cinzenta. Não domina internamente com consistência e, na Europa, alterna momentos promissores com quedas abruptas. Falar em remodelação profunda é reconhecer falhas estruturais.


Mudar o treinador é o passo mais visível — e o mais fácil. O difícil é:

Rever política de contratações

Apostar em perfis atléticos adaptados ao ritmo europeu

Reforçar scouting internacional

Definir identidade clara de jogo


Se Hallberg for escolhido, ele terá de ter autonomia real. Caso contrário, será apenas mais um nome num ciclo curto.


O presidente Rui Costa sabe que a modalidade precisa de recuperar relevância. O investimento recente em infraestruturas, nomeadamente no Pavilhão da Luz, não pode ser dissociado de ambição competitiva.


Mas ambição sem método é desperdício.



A questão estratégica: modelo nórdico na Luz?


Trazer um treinador sueco não é apenas uma escolha técnica. É uma opção cultural. O andebol nórdico privilegia:

Intensidade física elevada

Defesa agressiva e coordenada

Ataque estruturado com circulação constante

Disciplina tática


A pergunta que poucos fazem: o plantel atual do Benfica está preparado para isso?


Se não estiver, a mudança implicará renovação significativa. E isso custa dinheiro e tempo. A direção encarnada terá de decidir se quer uma transição gradual ou uma ruptura imediata.


Ambas têm riscos.


Uma transição lenta pode prolongar instabilidade competitiva. Uma ruptura agressiva pode gerar frustração se os resultados demorarem.



Hallberg: aposta calculada ou risco desnecessário?


Há um detalhe que não pode ser ignorado: Hallberg ainda não treinou fora da Suécia. Adaptar-se a um campeonato diferente, com pressão mediática maior e exigência de títulos imediatos, não é trivial.


O Benfica não é um laboratório. É um clube onde empates são questionados e derrotas amplificadas.


Se a escolha for confirmada, a estrutura deve blindar o treinador no primeiro ano. Caso contrário, o projeto nasce fragilizado.


A verdade é dura: o Benfica precisa de um plano de três épocas. Se a expectativa for “ganhar tudo já”, qualquer treinador — sueco ou não — ficará refém da impaciência.



A renovação do plantel será inevitável


Falar em novo ciclo implica mexer no balneário. Jogadores acomodados, contratos longos sem rendimento proporcional e falta de consistência defensiva têm sido problemas recorrentes.


Hallberg, pela sua formação como central, valoriza muito a leitura de jogo e a disciplina posicional. Isso significa que atletas indisciplinados taticamente terão dificuldade em encaixar.


A direção terá coragem para cortar onde for preciso?


Ou ficará presa a nomes e estatutos?


Projetos vencedores exigem decisões impopulares.



Impacto europeu: Benfica quer subir de patamar


A presença na EHF European League tem sido importante, mas insuficiente. O objetivo declarado internamente passa por consolidar presença nas fases decisivas e, a médio prazo, discutir lugares na elite continental.


Um treinador jovem pode trazer inovação, mas inovação sem profundidade de plantel não resolve.


A diferença entre competir e vencer na Europa está em:

Banco de qualidade equivalente ao sete inicial

Preparação física ao nível das equipas alemãs e francesas

Gestão emocional em jogos decisivos


Se Hallberg aceitar o desafio, terá de exigir isso desde o primeiro dia.



O calendário pode acelerar decisões


O curioso é que o Kristianstad regressa ao Pavilhão da Luz em breve. Esse reencontro pode servir como observação final da direção encarnada. Não apenas do treinador, mas da forma como a sua equipa reage sob pressão.


Decisões estratégicas raramente são tomadas apenas com base em resultados. Observa-se postura, comunicação, liderança.


E nesse campo, Hallberg tem reputação positiva.


Mas reputação não ganha campeonatos.



Conclusão: mudança necessária, mas não suficiente


A possível contratação de Anders Hallberg representa intenção clara de mudança no andebol do Benfica. Porém, a mudança real só acontecerá se vier acompanhada de coerência estratégica.


Se a direção quer um novo ciclo, precisa de:

1. Definir metas realistas a três anos

2. Garantir orçamento competitivo

3. Reforçar scouting internacional

4. Dar estabilidade ao treinador escolhido


Caso contrário, será apenas mais uma troca de nome num problema estrutural.


O Benfica não precisa de entusiasmo mediático. Precisa de consistência competitiva.


Se Hallberg for mesmo o escolhido, a pergunta não será se ele é bom treinador. A pergunta será: o clube está preparado para sustentar o modelo que ele representa?


Sem essa resposta, qualquer aposta é um salto no escuro.


E o andebol encarnado já desperdiçou tempo demais.

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