O mais recente Relatório e Contas da Benfica SAD trouxe um número que não passa despercebido: quase 200 milhões de euros ainda por receber relativos a transferências de jogadores. Num futebol cada vez mais dependente de vendas milionárias e engenharia financeira, o dado levanta questões estratégicas sobre liquidez, risco e sustentabilidade do modelo de negócio encarnado.
De acordo com o documento oficial, os saldos das rubricas de clientes e outros devedores atingem 198,2 milhões de euros, um crescimento de 20,6% face aos 164,4 milhões registados a 30 de junho de 2025. A explicação apresentada pela administração é clara: valorização consistente dos ativos e alienação de direitos económicos por montantes elevados.
Mas a pergunta que importa não é quanto o Benfica vendeu. É quanto já recebeu — e quando vai receber o restante.
Quase 200 milhões por encaixar: o que significa na prática?
Os 198,2 milhões de euros correspondem essencialmente a valores ainda por liquidar por parte de clubes que contrataram jogadores ao Benfica. Entre os dossiês identificados estão transferências envolvendo:
• Orkun Kökçü (Besiktas)
• Enzo Fernández (Chelsea)
• Florentino Luís (Burnley)
• Marcos Leonardo (Al Hilal)
• Kerem Aktürkoğlu (Fenerbahçe)
• Arthur Cabral (Botafogo)
• Morato (Nottingham Forest)
• Benjamín Rollheiser (Santos)
Todos estes montantes estão previstos contratualmente e enquadram-se nos planos de pagamento acordados. No papel, está tudo controlado. No mundo real, a conversa é outra.
No futebol moderno, as transferências são frequentemente estruturadas em prestações plurianuais. Isso significa que a receita contabilística é reconhecida, mas o dinheiro entra faseadamente. Resultado: demonstrações financeiras com lucros robustos, mas tesouraria dependente da pontualidade de terceiros.
Crescimento da rubrica de devedores: sinal de força ou de exposição?
A SAD defende que o aumento da rubrica de clientes e outros devedores comprova a capacidade do clube em valorizar ativos e negociar vendas relevantes. É verdade. O Benfica consolidou-se como uma das principais plataformas de exportação de talento na Europa.
Casos como o de Enzo Fernández — vendido ao Chelsea por valores recorde — projetaram o clube internacionalmente e reforçaram a imagem de “fábrica de talentos”. Contudo, há um risco estrutural: dependência excessiva de mais-valias em transferências para equilibrar contas.
Quando quase 200 milhões estão por receber, o risco de atraso, renegociação ou incumprimento não pode ser ignorado. Clubes como Chelsea, Al Hilal ou Fenerbahçe têm capacidade financeira robusta. Outros mercados, porém, podem enfrentar volatilidade cambial, instabilidade económica ou restrições regulatórias.
O Benfica está protegido contratualmente. Mas contratos não eliminam risco sistémico.
Redução de gastos com pessoal: alívio estrutural ou ajuste circunstancial?
Outro ponto relevante do Relatório e Contas é a descida dos gastos com pessoal para 61,9 milhões de euros no semestre, menos 13,1% face ao período homólogo. A redução de 9,3 milhões está ligada sobretudo ao impacto extraordinário da rescisão com Roger Schmidt no exercício anterior.
Ou seja, parte da melhoria não resulta necessariamente de uma estratégia estrutural de contenção salarial, mas sim da ausência de custos extraordinários.
Ainda assim, há também uma redução de 4,8% nas remunerações fixas, reflexo de ajustamentos na massa salarial. Num contexto em que muitos clubes europeus lutam com salários inflacionados, este dado é positivo.
Contudo, o documento menciona prémios associados à conquista da Supertaça Cândido de Oliveira e ao apuramento para a fase de liga da UEFA Champions League. Ou seja, parte do esforço financeiro mantém-se atrelado ao desempenho desportivo.
Sem Champions, o cenário muda radicalmente.
Modelo de negócio: vender para competir ou competir para vender?
A grande questão estratégica é esta: o Benfica vende para competir ou compete para vender?
O clube da Luz construiu um modelo altamente eficiente na identificação, desenvolvimento e venda de talento. Mas esse modelo tem um efeito colateral: rotação constante do plantel e necessidade de reinvestimento contínuo.
Quando se analisam quase 200 milhões por receber, percebe-se que uma fatia significativa da sustentabilidade depende de terceiros honrarem compromissos ao longo dos próximos anos.
Num cenário ideal, essas entradas futuras financiam reforços, reduzem dívida e garantem estabilidade. Num cenário adverso — atrasos, crises externas ou falhanços desportivos — a pressão sobre a tesouraria aumenta.
Liquidez vs. lucro contabilístico
Há uma diferença crucial entre lucro contabilístico e liquidez real. O Relatório e Contas pode apresentar resultados positivos, mas o fluxo de caixa é que determina a margem de manobra no dia a dia.
Se uma parte substancial das receitas está calendarizada para os próximos exercícios, o Benfica terá de gerir cuidadosamente:
• Calendário de pagamentos a fornecedores
• Serviço da dívida
• Investimento em reforços
• Renovação de contratos estratégicos
O equilíbrio é delicado. Especialmente num mercado onde a inflação salarial não abranda e as exigências competitivas são máximas.
Dependência de mercados externos
Outro ponto crítico é a diversificação de compradores. As transferências mencionadas envolvem Inglaterra, Turquia, Arábia Saudita e Brasil. Esta dispersão é positiva, pois reduz concentração de risco num único campeonato.
Contudo, mercados emergentes podem sofrer oscilações políticas ou económicas. A Arábia Saudita vive uma fase de forte investimento no futebol, mas ciclos mudam. O mesmo se aplica a clubes altamente alavancados financeiramente.
A pergunta estratégica é: o Benfica está preparado para um cenário de retração global nas transferências?
O que esperar nos próximos meses?
Se os pagamentos decorrerem dentro do previsto, o clube reforça posição financeira e mantém capacidade competitiva. Se houver atrasos significativos, poderá ser necessário recorrer a soluções intermédias, como antecipação de receitas ou maior prudência no mercado.
A administração transmite confiança. Os números mostram crescimento. Mas crescimento sustentado exige disciplina, visão de longo prazo e controlo rigoroso de risco.
Quase 200 milhões por receber não são apenas um número impressionante. São uma responsabilidade.
Num futebol onde a linha entre sucesso e fragilidade é cada vez mais ténue, a capacidade do Benfica em transformar ativos desportivos em liquidez efetiva continuará a ser o verdadeiro teste ao modelo encarnado.
O talento vende. A gestão é que decide se o dinheiro constrói futuro — ou apenas tapa buracos temporários.

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