Num sábado simbólico para o universo encarnado, a equipa de andebol do Sport Lisboa e Benfica respondeu dentro de campo com aquilo que verdadeiramente interessa: resultados. Na deslocação ao Minho, as águias bateram o ABC Braga por 35-30, em jogo da 21.ª jornada da fase regular do Campeonato Nacional, somando três pontos fundamentais na luta pelo topo.
Mais do que uma vitória fora de portas, o triunfo representa uma afirmação competitiva numa fase decisiva da temporada. O Benfica sabia que não podia falhar — e não falhou. Mas quem olhar apenas para o resultado final pode cair no erro de pensar que foi uma tarde tranquila. Não foi.
Primeira parte equilibrada expôs fragilidades defensivas
Jota González lançou de início Gustavo Capdeville, Alejandro Barbeito, Gabriel Cavalcanti, Reinier Taboada, Stiven Valencia, Mikita Vailupau e Javi Rodríguez. Um sete inicial forte, experiente e com argumentos ofensivos claros. No banco, soluções de qualidade: Rangel da Rosa, Miguel Sánchez, Christopher Hedberg, Miguel Mendes, Pau Oliveras, Kristian Olsen, Bélone Moreira, Fábio Silva e El Korch.
Ainda assim, a primeira parte revelou um problema que tem sido recorrente em alguns momentos da época: dificuldade em controlar o ritmo emocional do jogo fora de casa. O ABC Braga entrou sem complexo de inferioridade, respondeu golo a golo e explorou bem as transições rápidas. O empate a 16 bolas ao intervalo não foi um acaso — foi consequência direta de uma defesa encarnada permissiva e de alguma precipitação ofensiva.
Para uma equipa que ambiciona o título nacional, permitir esse nível de equilíbrio frente a um adversário teoricamente inferior é um sinal de alerta. O Benfica foi eficaz no ataque, mas demasiado reativo na organização defensiva. Em jogos grandes, este tipo de desconcentração pode custar caro.
Reação na segunda parte mostrou maturidade competitiva
Se a primeira parte deixou dúvidas, a segunda trouxe respostas. E isso é o ponto mais positivo da tarde. A equipa encarnada entrou com outra intensidade, ajustou o bloco defensivo e reduziu o espaço interior concedido ao adversário. A diferença não esteve apenas nos golos marcados, mas na forma como o Benfica passou a controlar o tempo de jogo.
Sem dar margem ao crescimento anímico do ABC Braga, as águias construíram uma vantagem confortável e souberam geri-la. O resultado final de 35-30 reflete essa superioridade no segundo tempo, mas não deve mascarar o facto de que a equipa só atingiu o seu verdadeiro nível após o intervalo.
Isto levanta uma questão estratégica: por que razão o Benfica precisa de ser pressionado para jogar no seu máximo? Uma equipa que quer ser campeã não pode viver de reações. Tem de impor o seu jogo desde o primeiro minuto.
Classificação: Benfica mantém pressão sobre o Sporting
Com esta vitória, o Benfica soma 55 pontos e consolida o segundo lugar na fase regular do Campeonato Nacional. A distância para o líder Sporting CP diminui, ainda que os leões tenham jogos em atraso.
É aqui que a análise precisa de ser fria e estratégica. Estar em segundo lugar é meritório, mas não suficiente. O Sporting continua dependente de si próprio. O Benfica não controla o seu destino na totalidade — e isso deve ser encarado como um problema, não como detalhe estatístico.
Se o objetivo é o título, não basta ganhar quando é esperado ganhar. É preciso consistência absoluta e margem psicológica sobre os rivais. Cada ponto perdido até aqui pesa. Cada primeira parte mal conseguida aumenta o risco.
Jota González e a transição no comando técnico
Outro fator que não pode ser ignorado é o contexto técnico. Jota González, que já tem sucessor anunciado, continua a liderar a equipa numa fase sensível da temporada. A gestão emocional do grupo num cenário de transição é um teste de liderança.
Até agora, os resultados têm sido positivos. Mas a pergunta relevante é outra: a equipa está verdadeiramente estabilizada ou está a viver uma fase de motivação circunstancial antes da mudança?
O jogo frente ao ABC Braga mostrou duas caras do Benfica. A versão insegura e reativa da primeira parte e a versão dominante e madura da segunda. Em alta competição, a diferença entre ganhar campeonatos e ficar pelo caminho está precisamente nessa oscilação.
Andebol Benfica: crescimento real ou ilusão estatística?
A série de bons resultados nas provas nacionais é inegável. O Benfica tem mostrado capacidade ofensiva elevada, soluções no banco e profundidade de plantel. No entanto, o andebol moderno exige mais do que talento individual e momentos de inspiração.
Exige disciplina tática permanente, intensidade defensiva constante e frieza emocional em ambientes hostis.
Contra o ABC Braga, a vitória foi justa. Mas não foi autoritária desde o início. Para uma equipa que pretende afirmar-se como dominadora no andebol português, a autoridade não pode surgir apenas depois do intervalo.
É aqui que entra a análise estratégica: o Benfica precisa de elevar o padrão interno de exigência. Não apenas ganhar. Ganhar bem, controlar o jogo e impor respeito competitivo.
O que esta vitória significa para o restante campeonato?
Em termos práticos, três pontos fora de casa mantêm o Benfica vivo na luta pelo título. Em termos psicológicos, reforçam a ideia de que a equipa sabe reagir à adversidade. Mas não eliminam as fragilidades observadas.
O calendário aperta, a margem de erro diminui e a pressão aumenta. Cada jogo passa a ter peso específico maior. Se o Benfica quer transformar esta temporada numa afirmação clara de poder no andebol nacional, precisa de começar a resolver partidas deste tipo com menos drama e mais autoridade.
O triunfo por 35-30 no Minho foi importante. Fundamental, até. Mas não pode ser celebrado como ponto de chegada. Deve ser encarado como ponto de partida para um nível competitivo superior.
Porque no fim das contas, o que separa candidatos de campeões é a consistência.
E consistência não se constrói apenas com vitórias. Constrói-se com domínio.

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