José Mourinho não é homem de elogios gratuitos. Muito menos quando se trata de jovens jogadores acabados de chegar ao futebol profissional. Por isso, quando o treinador do Benfica decide comparar Anísio Cabral a Didier Drogba, o futebol português deve parar para ouvir — não para idolatrar, mas para perceber exatamente o que está a ser dito… e o que não está.


Na conferência de imprensa após o triunfo frente ao Alverca, Mourinho falou abertamente sobre o jovem camisola 72, que voltou a marcar e a deixar sinais claros de que não é apenas mais um produto da formação lançado para “cumprir calendário”. A análise do técnico foi crua, técnica e, acima de tudo, reveladora.


Mourinho não elogia por acaso — e isso muda tudo


José Mourinho começou por enquadrar o tema com a frieza que o caracteriza:


“Sobre o teto do Anísio, depende de muitas coisas. O potencial está lá, a fisicalidade, os movimentos em profundidade.”


Aqui está a primeira mensagem-chave: potencial não é destino. Mourinho não está a prometer uma estrela, está a identificar matéria-prima. Num Benfica habituado a inflacionar jovens ao primeiro golo, esta distinção é essencial.


Fisicalidade e movimentos em profundidade são duas qualidades raras em avançados jovens no futebol português. A maioria surge tecnicamente evoluída, mas sem presença física nem agressividade na área. Anísio Cabral foge a esse padrão — e isso explica porque Mourinho o vê como algo diferente.


Jogo de costas para a baliza: o detalhe que denuncia um avançado “à antiga”


O ponto mais interessante da análise surgiu quando Mourinho entrou no detalhe:


“Tem coisas no jogo de costas para a baliza muito parecidas com um jogador que eu tive.”


Este tipo de referência não é inocente. O jogo de costas para a baliza é uma arte quase extinta no futebol moderno, dominado por avançados móveis, falsos noves e extremos adaptados. Mourinho está a falar de um ponta de lança clássico, capaz de segurar defesas, ganhar faltas e criar espaço para quem vem de trás.


Para o Benfica, isto é ouro tático. Uma equipa que muitas vezes enfrenta blocos baixos precisa de um avançado que saiba jogar sob pressão, proteger a bola e decidir rápido. Anísio mostrou isso em poucos minutos — o suficiente para captar a atenção de um treinador obcecado por detalhes.


A comparação com Drogba: mais aviso do que elogio


Quando finalmente revelou o nome, Mourinho foi claro:


“O Drogba [Didier]. Depois o Drogba marcava cinco golos de cabeça em cinco cruzamentos…”


A internet agarrou-se à comparação como se fosse um selo de garantia. Erro clássico. Mourinho não está a dizer que Anísio Cabral é o novo Drogba. Está a dizer que há traços semelhantes num estágio muito embrionário.


E depois veio o balde de água fria:


“Podem rir ou chamar-me idiota, mas o jogo de cabeça não é o forte dele.”


Aqui está a parte que muitos vão ignorar — e que é a mais importante. Drogba tornou-se Drogba porque corrigiu as suas fragilidades. Anísio, neste momento, não domina o jogo aéreo, algo quase obrigatório para um avançado com o seu perfil físico.


Os dois golos de cabeça? Mourinho foi implacável:


“Acho que foi milagre.”


Sem romantismo. Sem hype. Apenas realidade.


Anísio Cabral não é um produto acabado — e isso é bom


O que distingue este discurso de tantos outros é que Mourinho não vende ilusões. Anísio Cabral não está pronto para ser titular indiscutível, nem para carregar o ataque do Benfica às costas. Está, sim, numa fase crítica: ou evolui com exigência máxima, ou será mais um talento perdido entre empréstimos e expectativas mal geridas.


O exemplo de Tondela, citado pelo treinador, mostra consistência:


“Em Tondela quase voltou a marcar quando entrou.”


Impacto imediato, mesmo saindo do banco, é um sinal claro de instinto goleador. E isso não se ensina. Finalização, leitura de espaço e timing são dons raros — e Anísio tem-nos.


O papel do Benfica: proteger sem amaciar


Aqui entra a responsabilidade do clube. O Benfica tem histórico recente de dois extremos: ou lança jovens demasiado cedo, ou trava-lhes o crescimento com excesso de cautela. Com Anísio Cabral, o equilíbrio será decisivo.


Ele precisa de:

Minutos reais, não simbólicos

Concorrência séria no treino

Trabalho específico de jogo aéreo

Pressão controlada, não idolatria precoce


Se o Benfica transformar esta comparação com Drogba numa campanha de marketing, estará a sabotar o próprio jogador. Se, pelo contrário, seguir a leitura fria de Mourinho, pode estar a lapidar um avançado com características raras no futebol português.


Mourinho já viu este filme — e sabe como acaba


José Mourinho treinou alguns dos melhores avançados da história recente. Drogba, Milito, Ibrahimović, Diego Costa. Todos diferentes, mas todos com uma coisa em comum: evoluíram porque foram confrontados com as suas falhas, não protegidos delas.


Ao expor publicamente as limitações de Anísio Cabral, Mourinho está a fazer-lhe um favor. Está a colocar a fasquia alta desde o primeiro dia. Quem não aguenta isso, não chega ao topo.


Conclusão: o elogio que esconde um teste brutal


A comparação entre Anísio Cabral e Didier Drogba não é um prémio — é um teste. Um aviso. Um desafio lançado em público. Mourinho viu algo especial, mas deixou claro que o caminho é longo, duro e cheio de correções.


Se Anísio interpretar isto como motivação, o Benfica pode ter encontrado um avançado diferente do molde habitual. Se se deixar levar pelo ruído mediático, será apenas mais um nome que passou pela Luz com promessas por cumprir.


No futebol de alto nível, talento abre a porta. Só evolução constante impede que ela se feche.