O Sporting voltou a estar no centro da controvérsia mediática depois de uma decisão que está a gerar forte reação no panorama jornalístico nacional. As acusações à estrutura verde e branca tornaram-se públicas esta segunda-feira, dia 9 de fevereiro, na sequência de acontecimentos ocorridos durante o fim de semana, envolvendo o acesso de profissionais de comunicação social a um evento desportivo oficial.
A Direção do jornal desportivo O Jogo anunciou que vai avançar com uma exposição formal junto da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), do Sindicato dos Jornalistas e da Federação Portuguesa de Basquetebol. Em causa está a decisão do Sporting de impedir a entrada da jornalista Catarina Domingos no Clássico da 14.ª jornada da Liga Betclic de basquetebol, disputado no passado dia 7 de fevereiro, no Pavilhão João Rocha, encontro que terminou com derrota dos leões.
Jornal O Jogo fala em violação grave da liberdade de Imprensa
Num comunicado divulgado no seu site oficial, a Direção do jornal, integrado no grupo Notícias Ilimitadas, não poupou palavras ao classificar a decisão do Sporting como “grave”. Segundo o órgão de comunicação social, a medida representa uma violação clara da liberdade de Imprensa, incluindo o direito dos jornalistas a informarem sem impedimentos, discriminações ou condicionamentos externos.
O jornal sublinha que a decisão parece visar não apenas uma profissional em concreto, mas condicionar o trabalho de toda uma redação com quase 41 anos de história no jornalismo desportivo português. A leitura feita é inequívoca: trata-se de um precedente perigoso que pode afetar o equilíbrio entre clubes e órgãos de comunicação social.
A fronteira entre gestão de imagem e censura encapotada
Este episódio levanta uma questão central que vai muito além do Sporting ou do jornal O Jogo: onde termina a legítima gestão de imagem de um clube e onde começa a censura encapotada ao trabalho jornalístico?
Os clubes profissionais são entidades privadas, mas participam em competições públicas, financiadas direta ou indiretamente por adeptos, patrocinadores e direitos televisivos. Impedir o acesso de um jornalista acreditado a um evento oficial não é apenas um ato administrativo — é um sinal político. E, neste caso, o sinal é claro: quem publica notícias incómodas pode pagar um preço.
Essa lógica é incompatível com um ecossistema desportivo saudável e transparente.
A ligação ao caso Morten Hjulmand adensa suspeitas
O comunicado do jornal estabelece ainda uma ligação direta entre esta decisão e uma notícia publicada dias antes, relacionada com o desagrado de Morten Hjulmand. Segundo O Jogo, o médio não terá ficado satisfeito com a recusa do Sporting em aceitar uma proposta do Atlético de Madrid, situação que poderá ter estado na origem da sua ausência da convocatória para o jogo frente ao Nacional, a contar para a 20.ª jornada do campeonato.
Ainda que o clube nunca tenha confirmado oficialmente essa versão, o encadeamento temporal dos acontecimentos levanta suspeitas difíceis de ignorar. A perceção pública é a de que o Sporting terá reagido mal à exposição mediática de um assunto sensível, optando por retaliar não com esclarecimentos, mas com restrições ao trabalho jornalístico.
Declarações do diretor reforçam posição editorial firme
Nuno Vieira, diretor de O Jogo, foi perentório ao defender a independência editorial do jornal. Numa declaração clara e sem ambiguidades, afirmou que o jornalismo não se submete a interesses externos, nem ajusta o momento de publicação de notícias ao calendário desportivo ou à conveniência de terceiros.
“O jornalismo não se submete a interesses, nem ajusta o momento da publicação de uma notícia ao calendário desportivo ou à conveniência de terceiros. O Jogo não aceita este tipo de posições, seja de que clube for. Impedir o acesso de um jornalista a um evento público é grave e, como tal, vamos agir em conformidade”, afirmou.
Estas palavras reforçam a ideia de que o jornal pretende transformar este caso num marco, evitando que situações semelhantes se banalizem no futuro.
Cancelamento de entrevista agrava clima de tensão institucional
Como se não bastasse, a Direção do jornal lamenta ainda o cancelamento “em cima da hora” de uma entrevista com Kiko Costa, atleta do Sporting e da Seleção Nacional de andebol. Segundo o comunicado, esta decisão surge como consequência direta do clima criado pelos incidentes anteriores.
Este detalhe é particularmente relevante porque demonstra que o conflito não se limitou a um único evento ou modalidade. Pelo contrário, parece ter contaminado a relação institucional entre clube e órgão de comunicação social, prejudicando também atletas que nada têm a ver com a polémica.
Sporting arrisca desgaste reputacional desnecessário
Do ponto de vista estratégico, a atuação do Sporting levanta sérias dúvidas. Num contexto em que os clubes dependem cada vez mais da sua imagem pública, do engagement com adeptos e da credibilidade institucional, este tipo de decisão parece contraproducente.
Mesmo que o clube considere determinada cobertura injusta ou incorreta, existem mecanismos adequados para responder: direito de resposta, esclarecimentos públicos ou ações legais, se necessário. Optar por restringir o acesso de jornalistas transmite uma imagem de fragilidade e intolerância à crítica.
Num futebol e desporto cada vez mais escrutinados, fechar portas raramente é sinal de força.
Um caso que pode criar jurisprudência no jornalismo desportivo
A decisão de O Jogo de apresentar exposições formais à ERC, ao Sindicato dos Jornalistas e à Federação Portuguesa de Basquetebol indica que este caso pode ter consequências mais amplas. Se houver uma posição firme das entidades reguladoras, poderá estabelecer-se um precedente importante sobre os limites da atuação dos clubes em relação à comunicação social.
Para muitos jornalistas, este não é apenas um episódio isolado, mas um teste à maturidade democrática do desporto português.
Conclusão: liberdade de Imprensa não é negociável
Independentemente das simpatias clubísticas, há um ponto que deve ser consensual: a liberdade de Imprensa não é negociável nem condicionável por resultados, notícias incómodas ou interesses momentâneos.
O Sporting ainda vai a tempo de clarificar a sua posição e desanuviar um conflito que, para já, só lhe traz desgaste. Caso contrário, corre o risco de ficar associado a uma prática que o jornalismo — e a democracia — não podem aceitar.
Num desporto que vive de paixão, rivalidade e escrutínio, silenciar nunca foi, nem será, a melhor estratégia.

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