Cinco Jogadores do FC Porto Mandam na Seleção Sub-17: Portugal é o Porto?

 


O Mundial de sub-17 no Catar ganhou um ingrediente inesperado: Portugal está na final após derrubar o poderoso Brasil, numa dramática decisão por grandes penalidades (6-5). O feito não surgiu do acaso, nem de sorte. Teve assinatura clara: cinco jogadores ligados ao FC Porto estiveram diretamente envolvidos na vitória, moldando a identidade desta equipa ousada que sonha com o título mundial.


A presença portista tornou-se mais do que um detalhe estatístico. Transformou-se numa demonstração visível de que o trabalho de base do clube está num patamar superior ao da concorrência interna — e até muito próximo das grandes academias internacionais.



A vitória contra o Brasil: mais do que um resultado, uma afirmação mundial


Portugal encarou o Brasil com personalidade. Não houve medo perante camisolas históricas nem retração gráfica ao estilo “underdog”. Bino Maçães montou uma equipa que quis mandar no jogo, fugir da romantização excessiva da posse e procurar profundidade com inteligência tática.


Os golos não apareceram no tempo regulamentar, mas a maturidade dos jovens lusos revelou algo mais forte do que números: equilíbrio emocional. Quando a decisão foi para os penáltis, o peso da camisola canarinha — normalmente intimidador — evaporou-se diante de um grupo preparado para o momento.


A vitória por 6-5 nas grandes penalidades não reflete nervosismo; reflete caráter competitivo. Se há um ponto a destacar, é este: Portugal ganhou porque soube sofrer e porque não se escondeu.



Cinco jogadores do FC Porto impulsionam a seleção: acaso ou mérito estrutural?


Martim Chelmik (defesa central), Bernardo Lima e Mateus Mide (médios), Duarte Cunha (avançado) foram titulares. Aos 58 minutos, o lateral-esquerdo Yoan Pereira entrou para reforçar equilíbrio tático e pressão pelos corredores. Não estamos a falar de presenças simbólicas, mas de papéis estruturais.

Martim Chelmik comandou a linha defensiva com autoridade, mantendo controlo emocional digno de jogador sénior.

Bernardo Lima foi o cérebro na construção, escapando à pressão alta brasileira.

Mateus Mide acrescentou intensidade e rigor na recuperação.

Duarte Cunha mostrou mobilidade e leitura ofensiva que não depende de golos para impressionar.

Yoan Pereira, entrando na reta final, apresentou frescura e responsabilidade numa fase crítica do jogo.


Nota-se aqui um padrão: não são “miúdos talentosos”, são jogadores formados para competir.


O FC Porto não apenas desenvolve atletas; molda perfis vencedores. A mentalidade que se viu na seleção não surgiu da casualidade, mas de um programa claro de desenvolvimento, onde disciplina e competitividade andam no mesmo trilho.



Formação portuguesa: existe hegemonia portista à vista?


A pergunta é inevitável: o FC Porto tornou-se a nova referência nacional na formação? Os números apontam para sim, mas a resposta precisa de prudência. O Porto não tem a mesma exposição mediática da academia do Sporting, nem os fluxos financeiros estruturais da formação do Benfica. Mas apresenta uma vantagem que hoje pesa mais do que marketing: forma jogadores para competir, não para colecionar estatísticas juvenis.


A diferença é brutal. Jogadores do Porto não parecem “promessas”, parecem prontos. O Mundial sub-17 revelou isso perante os olhos do planeta. E se o Porto continuar a exportar essa cultura para as seleções, o futebol português deixará de depender de ciclos para se tornar constante.



Bino Maçães e a coragem tática: sem medo de perder para ganhar


A estratégia de Bino Maçães merece leitura crítica: não é conservadora, nem inconsciente. Ele permite que a equipa assuma riscos, mas apenas riscos calculados. Contra o Brasil, não se tentou “encantar” o público; tentou-se neutralizar pontos fortes do adversário e acelerar no momento certo.


Isso explica por que Portugal não foi dominado mentalmente, mesmo em períodos difíceis. Em vez de abdicar do jogo, a seleção interpretou o ritmo. Quando sentiu instabilidade defensiva do Brasil, tentou transições rápidas. Quando percebeu que a posse poderia virar contra si, reduziu o risco e jogou entrelinhas.


Essa maturidade raramente é vista em escalões sub-17. Portugal tem treinador, tem identidade e tem jogadores que executam.



Portugal x Áustria: final exige a mesma frieza


A final está marcada para quinta-feira às 16h00 (Catar). Portugal irá defrontar a Áustria, equipa pragmática, disciplinada, menos talentosa no 1x1, mas extremamente competitiva. Quem esperar um adversário “fácil” vive de ilusão.


A Áustria é o oposto do Brasil: menos técnica, mais previsível, porém mais consistente no que se propõe a fazer. Terá baixas linhas, forte compromisso físico e fará Portugal ter de criar com paciência. O perigo será emocional: acreditar que já ganhou antes de jogar.


Se o FC Porto empresta competitividade à seleção, agora será o momento de provar que ela não abala com favoritismo.



Palavra final: não basta ir à final, é preciso justificar a fama


Chegar à final do Mundial sub-17 é feito histórico, mas não é o auge. O auge será vencer com convicção, confirmando que esta geração não é só promissora, é vencedora. O excesso de celebrações antes da hora é um inimigo silencioso. Portugal deve encarar a Áustria com a mesma mentalidade com que enfrentou o Brasil: respeitar para superar, competir para merecer.


Mais do que talento individual, o que levou Portugal à final foi caráter. E se há algo a ser exigido agora, é exatamente isso: não perder a identidade diante das luzes da glória.


Sem desculpas, sem empates morais. O futebol juvenil português não precisa apenas de técnica — precisa de títulos que sustentem a narrativa.


Quinta-feira, o mundo terá resposta.

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