Pérola do Seixal ignora renovação: ‘Não quero ser suplente eterno

 


A formação do Benfica continua a produzir jogadores em quantidade e qualidade, mas nem todos estão dispostos a aceitar o desafio com paciência. Um dos casos mais delicados do momento chama-se Jelani Trevisan, jovem belga de 20 anos, que tem vindo a destacar-se no Seixal, mas não demonstra vontade de prolongar a sua ligação aos encarnados. A situação é incómoda para o clube e reveladora de uma nova realidade no futebol moderno.


Segundo informações recolhidas junto de fonte próxima do processo, o extremo não pretende ceder facilmente nas negociações. O contrato não termina esta época, como inicialmente fazia prever — o vínculo é válido até 30 de junho de 2026 —, mas o problema é outro: o jogador não quer renovar e está disposto a esperar até ficar livre para escolher outro destino.



O talento que os números não escondem


Jelani Trevisan não está apenas a ser mais um nome da formação. Os números contam uma história concreta e incontestável: nove jogos oficiais, repartidos entre a Liga Portugal Meu Super, Liga Revelação e a Premier League International Cup, acumulando 483 minutos e quatro golos com a camisola 96.


Pode parecer pouco para quem olha apressadamente, mas, para quem acompanha os escalões jovens, este é o ritmo típico de uma cria predadora: pouco tempo em campo, muita eficiência. A temporada anterior confirmou o que já se suspeitava — Trevisan foi decisivo na conquista da Taça Revelação, um marco histórico para o sub-19 encarnado.


Ou seja, não é propaganda de academia: o miúdo rende, decide e aparece quando é preciso.



Formação encarnada: orgulho ou ilusão?


O Benfica gosta de exibir a formação como bandeira, mas a verdade é que muitos talentos não sobem a tempo. A fila é longa, e a porta da equipa principal raramente se abre no instante certo. Hoje, o plantel está nas mãos de José Mourinho, um treinador que historicamente preferiu juventude pronta, não juventude em desenvolvimento.


Mourinho não é o tipo de técnico que aposta em “crianças com potencial”. Ele quer jogadores já preparados para a guerra. No imediato, Trevisan não tem espaço no plantel principal. Pior ainda: não há sequer sinais de que alguma vez terá.


Aqui entra a questão central: o que vale a formação se os melhores acabam por fugir?


Trevisan olha para o seu exemplo recente: joga, marca, destaca-se… e mesmo assim continua à porta, enquanto outros reforços externos chegam todos os anos. E como qualquer jogador que se leva a sério, pergunta-se: por que esperar mais?



Ambição no futebol moderno: nova geração, outro mindset


Muitos adeptos gostam de romantizar a ideia de “formar no clube e ficar até chegar à equipa principal”. No entanto, a geração atual não vive de promessas, vive de oportunidades reais. Trevisan não quer ser um projeto, quer ser protagonista.


O jovem belga vê casos como:

jogadores emprestados eternamente;

promessas que nunca chegam à equipa A;

talentos que só têm espaço quando já estão prontos… mas prontos noutro clube.


Esta nova geração é pragmática: se não há plano sério, procuram outro que o tenha. Simples. Duro. Lógico.



Benfica: gestão estratégica ou desperdício silencioso?


Há quem acredite que a direção encarnada fará tudo para segurar Trevisan. Mas aqui entra a parte mais problemática: o clube está a negociar com um jogador que acredita que vale mais fora do Benfica do que dentro dele.


E talvez ele tenha razão. Basta olhar para a tendência:

João Félix saiu e brilhou.

Gonçalo Ramos precisou de explodir para ser visto.

António Silva só teve espaço porque o clube ficou sem alternativas.


O Benfica só aposta quando a urgência o obriga. Trevisan não quer esperar uma crise defensiva, uma lesão coletiva ou uma greve de extremos. Quer uma oportunidade agora. Não a tem. Logo, a resposta dele tem uma lógica brutal: recusar antecipar a renovação para ganhar controlo sobre a própria carreira.



Qual será o passo seguinte?


Trevisan está numa posição confortável. Quanto mais cresce, mais o seu passe se valoriza. Se mantiver a forma e continuar a mostrar impacto na equipa B, poderá:

Forçar uma integração na A;

Receber propostas de clubes europeus que dão minutos a jovens;

Chegar a 2026 como jogador livre e muito mais caro do que o Benfica quer pagar.


O clube está com pressa. O jogador, não. E isso desequilibra a negociação.



Conclusão: o dilema da formação benfiquista


O caso Jelani Trevisan expõe um ponto cego do Benfica: formar não é suficiente, é preciso integrar. Enquanto os dirigentes celebram a produção de talentos, muitos deles olham para a porta de saída como caminho mais curto para a elite. Para eles, o Seixal é uma ponte, não um destino.


Se o Benfica não garantir uma estratégia clara de promoção interna, continuará a ver jogadores como Trevisan partir. Não por ingratidão, mas por ambição — a mesma ambição que o clube diz querer cultivar.


No fundo, não é Trevisan que está a complicar a vida ao Benfica. É o Benfica que ainda não sabe o que fazer com jogadores como Trevisan.

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