Glória do Sporting morre aos 83 anos: despedida emocionada a Júlio Rendeiro na Basílica da Estrela

 


A morte de Júlio Rendeiro, lenda absoluta do hóquei em patins e figura incontornável do Sporting Clube de Portugal, lançou um silêncio pesado sobre o universo leonino. O antigo atleta, treinador e dirigente faleceu aos 83 anos, deixando um legado irrepetível na história do desporto português. Este domingo, 24 de novembro, a despedida na Basílica da Estrela foi marcada por presenças ilustres e por um clima de respeito que disse mais do que qualquer discurso.



Grande despedida a uma glória do Sporting


Na cerimónia fúnebre, o presidente Frederico Varandas fez questão de estar presente. Acompanhado por Francisco Salgado Zenha, André Bernardo e outros elementos dos órgãos sociais do Clube, o líder máximo do Sporting prestou homenagem a um homem que representou o emblema verde e branco muito além das quatro linhas — ou melhor, das quatro tabelas.


A presença institucional não foi um gesto protocolar. Foi um reconhecimento estratégico: Rendeiro não foi apenas campeão, foi símbolo de uma mentalidade de exigência, de uma cultura desportiva que o Sporting historicamente reivindica mas nem sempre consegue sustentar.



Homenagem: factos que sustentam uma lenda


O discurso de Varandas não poupou palavras ao recordar a dimensão de Júlio Rendeiro:


“É uma das glórias do nosso Sporting. Foi duas vezes Campeão do Mundo, cinco vezes Campeão da Europa, Campeão Europeu pelo nosso Sporting, ganhou vários títulos nacionais. Parte uma das grandes glórias da nossa história.”


Não se tratou de exaltação excessiva. A lista de conquistas fala por si e revelam como o hóquei contribuiu para colocar Portugal no topo da modalidade. No Sporting, venceu:

Quatro campeonatos nacionais

Duas Taças de Portugal

Uma Liga dos Campeões


E pela Seleção Nacional deixou marcas que qualquer atleta moderno dificilmente replicará:

Bicampeão mundial

Cinco vezes campeão europeu


Esses números não são meros troféus: são evidências de que a palavra “lenda” não está a ser usada como lugar-comum.



O homem antes da glória: um Sporting acima de si próprio


O elogio mais significativo não se ouviu na esfera desportiva. Varandas fez questão de destacar o lado humano:


“Do ponto de vista pessoal, perdemos um amigo. Era uma pessoa que vivia o Sporting intensamente, mas sempre com racionalidade… Era inteligente. Apoiou este projecto desde 2018.”


Num clube historicamente dividido por guerras internas, esta descrição diz tudo. Júlio Rendeiro não era um adepto influenciável por modas, polémicas ou tribalismos momentâneos. Apoiou o Sporting de forma lúcida, com espírito crítico e compromisso — qualidades que o clube raramente valoriza até ser tarde demais.


Mais do que atleta, Rendeiro foi mandatário nas eleições, vice-presidente, treinador e voz ativa. Um exemplo raro de sportinguismo que não se compra, não se usa como bandeira política e não muda conforme o vento.



O Sporting que Rendeiro defendia: visão e rigor


Há um detalhe que merece reflexão, e poucos terão coragem de dizer abertamente: se o Sporting tem hoje uma gestão mais estável, uma cultura de exigência desportiva mais clara e títulos que voltaram a chegar, é também porque figuras como Rendeiro ajudaram a apoiar o que representa ruptura com décadas de amadorismo interno.


Ele defendeu um Sporting que não vive de nostalgia barata, que não idolatra o passado como desculpa para a mediocridade do presente.


Defendeu um Sporting moderno, profissional e competitivo — mesmo que isso significasse contrariar correntes populistas dentro do clube.



Uma morte que é também aviso


Quando desaparecem figuras como Júlio Rendeiro, o perigo é a memória ser reduzida a vitrine. O Sporting tem tradição em transformar ídolos em estátuas de decoração, enquanto facilmente se esquece do caráter que os fez ídolos.


Rendeiro representa um desafio silencioso às gerações futuras: glória não é histeria de bancada, é disciplina, valentia competitiva e compromisso com o clube acima do ego.


Se o Sporting não aprender isso, continuará a perder mais do que títulos: perderá identidade.



Legado para além das pistas: símbolo nacional


Portugal tem no hóquei um palco onde compete com os melhores do mundo. E isso não se deve apenas a nomes modernos, mas a pioneiros como Júlio Rendeiro, que transformaram a modalidade em orgulho nacional. A sua morte não é apenas uma perda leonina — é um capítulo encerrado na história do desporto português.


Sem atletas desse calibre, o país não teria sido potência mundial. E, ironicamente, poucos portugueses fora da modalidade compreendem o peso disso.



Conclusão: um adeus que exige continuidade


Júlio Rendeiro partiu deixando títulos, sim, mas sobretudo um padrão. O Sporting não perde apenas um campeão: perde uma referência ética, alguém que demonstrou que amor ao clube não é gritar mais alto, é trabalhar mais sério.


A maior homenagem que o Sporting pode prestar não será uma sala com o seu nome, nem um minuto de silêncio. Será continuar a honrar o profissionalismo, o rigor e o caráter que ele defendia.


Tudo o resto é folclore. E Rendeiro nunca foi homem de folclores.

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