Mourinho convoca Rodrigo Rêgo, mas admite: ainda não serve para o Benfica

 


A viagem do Benfica a Amesterdão levou mais do que jogadores: levou dúvidas estratégicas. José Mourinho, depois de mexer no sistema encarnado na Taça de Portugal, arrasta agora para a Liga dos Campeões um dilema que pode redefinir o plantel. No centro desta equação está Rodrigo Rêgo, jovem ala que começou discretamente, mas está a ser empurrado para um papel que pode mudar a sua carreira — ou deixá-lo preso entre posições.


O treinador das águias convocou novamente o jovem para integrar a comitiva que enfrenta o Ajax, numa altura em que o próprio sistema tático não está fechado. Aquilo que à primeira vista parece confiança pode, na prática, ser apenas teste. Mourinho sabe isso, e deixou escapar o suficiente para percebermos que a decisão ainda não está tomada.



Defesa a três: solução estratégica ou tentativa desesperada?


José Mourinho fez história nos clubes que treinou porque raramente improvisou sem propósito. No último jogo contra o Atlético CP, porém, a inclusão de três centrais levantou sobrancelhas. Foi visão tática ou necessidade emergencial? Para quem acompanha o Benfica de perto, a resposta arrisca pender mais para a segunda opção.


A utilização do sistema 3-4-3 permitiu libertar alas ofensivos e compensar a falta de consistência defensiva que a equipa tem sofrido. Contudo, apostar num esquema tão particular apenas para acelerar o crescimento de um jogador é perigoso. Mourinho sabe que defesa a três exige automatismos e tempo de trabalho — algo que o plantel ainda não tem.


E aqui entra Rodrigo Rêgo.



As características do jogador: promessa ou projeto em construção?


Quando Mourinho afirma que Rodrigo Rêgo “não pode jogar como lateral numa linha de 4”, está a dizer duas coisas ao mesmo tempo:

O jogador ainda não tem maturidade defensiva.

O Benfica não tem tempo para esperar que ele aprenda.


Não é elogio. É diagnóstico clínico. A mensagem é clara: tacticamente, Rodrigo Rêgo vem de um patamar inferior e, neste momento, não serve para o papel tradicional de lateral. No entanto, o treinador vê nele um ala puro — capaz de jogar em qualquer corredor, desde que protegido por três centrais.


A fragmentação do papel do jogador revela que ele ainda não tem identidade definida. Mourinho enxerga potencial físico, velocidade e atitude competitiva, mas ainda o vê como atleta em desenvolvimento, sem base tática consolidada.


E isso traz outra questão: será que o Benfica tem espaço para formar jogadores enquanto disputa a Champions?



A verdade que ninguém quer dizer: Rêgo precisa de minutos, não de promessas


Convocar um jovem para jogos grandes cria ilusão de progressão. Mas estar na lista de convocados não significa evolução real. O jogador precisa entrar em campo com objetivos claros, minutos sólidos e contexto competitivo, não cinco ou dez minutos inconsequentes.


Se Rodrigo Rêgo começar no banco diante do Ajax — como é expectável — estará a viver o pior tipo de desenvolvimento: o que parece crescimento, mas não passa de vitrine. Estar perto da elite não o torna parte dela. E Mourinho, ao mesmo tempo que o elogia fisicamente, coloca um travão tático que pode limitar a sua utilização nos próximos meses.


A maior prova disso é quando o próprio treinador diz que “no futuro sim”, ele poderá jogar como lateral. Ou seja, agora não serve para o papel que seria mais útil ao plantel.



O problema do Benfica: carências que obrigam a improvisar


A ascensão de Rodrigo Rêgo expõe mais um problema: o Benfica está a criar novas posições para disfarçar velhas faltas. O sistema com três centrais pode até encaixar no jovem, mas será que encaixa no resto da equipa? Existe equilíbrio para sustentar esse modelo contra adversários de alta rotação, como o Ajax?


Os encarnados têm laterais que defendem pouco, extremos que não pressionam e centrais que não estão habituados a coberturas externas largas. Colocar um ala improvisado neste contexto é pedir que o jogador resolva o caos, e não que aprenda dentro de uma estrutura organizada.


Se Mourinho insistir no 3-4-3 apenas para potenciar Rodrigo Rêgo, corre o risco de prejudicar o coletivo. E se não insistir, o jogador fica sem espaço verdadeiro. É um paradoxo, e ninguém no clube parece disposto a admiti-lo.



O futuro imediato: banco hoje, incógnita amanhã


Rodrigo Rêgo deverá começar no banco frente ao Ajax. Mourinho pode utilizá-lo como arma tática, especialmente se o jogo exigir profundidade lateral ou velocidade na transição. Mas o seu uso será condicionado ao esquema escolhido. Isso significa que ele é opção secundária, dependente da estratégia, e não peça central de um projeto.


A sua oportunidade pode surgir, mas não está garantida. E enquanto não tiver papel definido, continuará a viver na corda bamba entre promessa e experiência.



Conclusão: Mourinho elogia, mas cobra. O jogador entra, mas ainda não pertence.


Rodrigo Rêgo está no meio de um processo duro e sem filtros: ou evolui rapidamente, ou perde espaço antes mesmo de conquistá-lo. O treinador abriu-lhe a porta e, simultaneamente, fez questão de avisar que ainda não está pronto para passar por ela. É brutal, mas é verdade.


Para o Benfica, o dilema é claro: formar um ala adaptado ao esquema ou voltar ao modelo de quatro defesas e deixá-lo sem função. Para o jogador, a única solução é crescer depressa e provar que merece minutos, não apenas convocatórias.


No futebol, estar perto não basta. O que conta é entrar, decidir e permanecer. Rodrigo Rêgo terá de mostrar que é mais do que uma experiência de Mourinho. Caso contrário, ficará apenas como mais um nome que viajou, mas nunca jogou o suficiente para justificar a aposta.


E no futebol moderno, a promessa sem minutos vale zero.

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