Porto e Gaia sacrificados para o TGV: modernização ou bulldozer estatal?

 


A promessa de um comboio de alta velocidade entre o Porto e Oiã chega embrulhada num pacote que ninguém pediu: o medo. Medo de perder a casa onde se criou uma família, medo de ver uma empresa encerrada por força das máquinas de demolição, medo de ser apenas um dano colateral num projeto que avança depressa demais para quem vai ficar para trás. A linha prevista do futuro TGV coloca cerca de uma centena de casas e quase três dezenas de empresas na rota da demolição, sobretudo entre o Porto e Vila Nova de Gaia, deixando centenas de pessoas numa espécie de limbo emocional e económico.


A ferrovia de alta velocidade promete desenvolvimento, modernização e competitividade. Contudo, o custo real começa a mostrar-se antes mesmo de a primeira pedra ser colocada. E não é financeiro — é humano.



Uma estação em Vilar do Paraíso: progresso para uns, tragédia para outros


A nova estação do TGV deverá nascer em Vilar do Paraíso, em Gaia. Para os decisores políticos e económicos, trata-se de um investimento estratégico que coloca o país numa rota europeia mais competitiva. Para quem vive na zona, o anúncio tem outro nome: incerteza. Muitos moradores já receberam a notícia e agora aguardam as cartas oficiais que irão confirmar se a casa onde dormirão esta noite ainda existirá daqui a dois anos.


A indefinição agrava o stress. Não há datas, não há traçado final, mas já há famílias que não dormem tranquilas. A ausência de informação clara da Infraestruturas de Portugal criou uma espécie de espera silenciosa, quase cruel, onde as pessoas assistem ao destino a ser escrito sem lhes perguntarem nada.



Casas e negócios na “linha de tiro”


A promessa de alta velocidade parece esmagar quem construiu vida, memória e futuro sobre alicerces agora ameaçados. Algumas empresas estão com investimentos suspensos, não por falta de clientes ou crise, mas porque não sabem se o seu espaço deixará de existir. Como se planifica crescimento quando o futuro pode ser demolido por decreto?


O impacto vai além das paredes: há empregos em risco, há capital bloqueado, há fornecedores que começam a repensar contratos. A linha ainda não está concluída, mas já está a travar desenvolvimento local — ironia máxima para um projeto que promete aceleração económica.



Autarcas movem-se, mas não acalmam ninguém


Em Gaia, o presidente Luís Filipe Menezes decidiu criar um grupo de trabalho para analisar o traçado do TGV no concelho. É uma resposta política necessária, mas tardia. Só agora a máquina começa a mexer-se localmente quando os moradores há meses vivem com a bomba a cair lentamente.


No Porto, o autarca Pedro Duarte prepara-se para analisar esta semana o projeto com a Infraestruturas de Portugal e com as empresas responsáveis pela definição do percurso. Uma reunião que chega envolta num conjunto de expectativas que a população já não consegue traduzir em esperança. O que as pessoas querem não são mais reuniões — querem respostas concretas, datas e alternativas reais.



O TGV deve passar, mas as pessoas ficam: quem as protege?


A discussão pública tem sido pobre. O país parece mais preocupado com os números do investimento do que com o impacto local. O Estado fala em milhões, a população fala em metros quadrados de vida. Não se está diante de um debate técnico — está-se diante de um debate ético.


A alta velocidade deve avançar? Claro. Mas com que custo humano? O investimento público só é progresso quando não destrói comunidades sem lhes dar voz.



Demolir não é o problema; abandonar pessoas é


O avanço inevitável de uma infraestrutura desta dimensão exige sacrifícios. O que não é aceitável é a forma desorganizada, pouco transparente e emocionalmente negligente como o processo está a ser conduzido. Se o Estado quer construir o futuro, deve fazê-lo com as pessoas, não sobre elas.


Algumas medidas mínimas que deveriam estar em curso e ainda não estão a ser garantidas de forma clara:

Planos de realojamento definidos antes das demolições

Indemnizações calculadas com base no valor real de mercado e impacto comercial

Opções de transferência para empresas, garantindo a continuidade laboral

Calendário público, detalhado e acessível

Consultas públicas reais, não meras formalidades burocráticas


Sem isso, não se trata de modernização — trata-se de atropelo administrativo.



Alta velocidade exige responsabilidade alta


Portugal quer a Europa mais perto e o crescimento mais rápido. Mas não pode exigir isso sacrificando cidadãos que, ironicamente, são os mesmos contribuintes que vão pagar a obra. Modernizar sem proteger é regressão, não progresso.


O TGV Porto–Oiã pode ser uma porta para o futuro, mas neste momento está a comportar-se como uma janela que se fecha na cara de quem apenas quer conservar a sua vida. A questão não é se a linha deve existir — a questão é como deve existir.


Se o país quer alta velocidade, tem de acompanhar com alta responsabilidade. Caso contrário, fica apenas com ferro e betão… em cima de vidas que nunca foram escutadas.

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