Sandra Madureira banida: justiça disciplinar ou silenciamento político?

 


A decisão tomada em Assembleia Geral neste sábado marcou mais uma página turbulenta na vida interna do FC Porto. Sandra Madureira, uma das figuras mais sonantes da contestação aos órgãos sociais, viu o seu nome ser riscado do quadro de associados. A expulsão, porém, está longe de ser o capítulo final. Tal como previsto nos estatutos dos dragões, a decisão pode ser revertida, seja pelos tribunais, seja por revisão interna. O que está em causa vai muito além de uma sanção: revela a divisão, o ruído político e a fragilidade institucional que o clube atravessa.



Expulsão de sócios no FC Porto: o que dizem os estatutos?


A possibilidade de Sandra Madureira recorrer não é uma cortesia; é um direito previsto no artigo 40.º dos estatutos do FC Porto. Segundo esse artigo, «a pena de expulsão pode ser objeto de revisão, com base na alegação de factos novos que não tenha sido possível invocar no processo disciplinar». Ou seja, se houver argumentos inéditos, provas não avaliadas ou elementos ignorados, a decisão pode voltar à mesa.


Além disso, o pedido de revisão não pode ser eterno. A alínea seguinte limita o prazo a um ano após a notificação da decisão ou após a Assembleia Geral onde a expulsão foi votada. Em termos práticos, significa que o relógio já começou a contar para Sandra Madureira, assim como para outros nomes já afastados – como Vítor “Aleixo” e Vítor “Catão”.


Quem decide a revisão da pena?


O processo não volta diretamente aos sócios. O primeiro filtro é o Conselho Fiscal e Disciplinar. É este órgão que analisa se o pedido é admissível e, caso aceite, conduz todo o procedimento até à nova decisão. Não é uma etapa meramente burocrática. A interpretação, a sensibilidade e até o contexto político influenciam. É aí que se percebe que a expulsão não é apenas jurídica; é também uma questão de poder.



O peso político da expulsão: limpeza ou conflito interno?


A expulsão de Sandra Madureira não pode ser analisada sem observar o contexto recente do FC Porto. A transição de poder, após décadas de hegemonia de Pinto da Costa, trouxe consigo uma nova liderança, novas lealdades e inevitáveis fraturas. A contestação pública, as denúncias, os episódios de tensão nas Assembleias Gerais e o clima inflamável no Dragão fizeram do clube um campo de batalha de posições.


Há quem defenda que a expulsão é necessária para pacificar e proteger a instituição. Outros entendem que se trata de uma purga política, um ato de silenciamento dos opositores. O FC Porto, que historicamente cultivou a imagem de “clube unido contra tudo e contra todos”, hoje luta contra si próprio. Quando uma instituição começa a expulsar quem pensa diferente, a fronteira entre disciplina e perseguição torna-se difusa.



As palavras de António Tavares: diplomacia ou aviso?


António Tavares, presidente da Mesa da Assembleia Geral, procurou suavizar o impacto da decisão. Disse claramente: «não existem penas perpétuas.» Tentou humanizar o momento, afirmando ter conversado com Sandra Madureira e deixando uma porta aberta para um futuro entendimento: «quando a poeira assentar e tudo isto for só memória.»


No entanto, o subtexto das afirmações também revela algo inquietante. Quando o dirigente diz que não se pode acreditar “num mar de rosas”, admite que o clube continua mergulhado em turbulência e que este tipo de decisão não resolve o problema – apenas o adia. A mensagem diplomática pode soar a esperança, mas também funciona como aviso: o FC Porto vive um combate prolongado e ainda não há vencedores claros.



Divisão entre sócios: o maior risco para o futuro


A expulsão é apenas um sintoma. O verdadeiro problema do FC Porto é a crescente polarização entre associados. De um lado, quem defende a nova direção como renovação inevitável. Do outro, quem vê o atual rumo como uma ruptura violenta com a identidade construída ao longo de décadas. O perigo não está numa sócia expulsa, mas na possibilidade de o clube se transformar numa arena permanente de facções.


O Porto sempre se assumiu como instituição combativa para fora, nunca para dentro. Se a guerra civil interna se prolongar, os danos serão muito mais profundos que qualquer questão disciplinar. Uma expulsão pode afastar uma pessoa; uma crise institucional pode afastar gerações.



Judicialização do clube: caminho sem retorno?


Agora, resta saber se Sandra Madureira optará pelo recurso judicial. A via dos tribunais torna a disputa mais lenta, mais pública e mais desgastante. Transformaria o FC Porto num caso jurídico permanente. Ninguém ganha com isso – exceto quem lucra com caos e manchetes.


Quando a política do clube salta para os tribunais, o debate torna-se menos democrático e mais técnico. Deixa de ser decidido por sócios e passa a depender de juízes e códigos civis. É uma forma de tirar poder aos associados, mesmo quando parece defendê-los.



Conclusão: expulsar é fácil, reconstruir é que custa


A expulsão de Sandra Madureira não define vencedores. Define apenas um novo capítulo da instabilidade que o clube vive. O FC Porto enfrenta hoje o desafio de reorganizar as suas bases, recuperar o respeito entre associados e assumir que a divergência não é um inimigo – pode ser uma força.


O próximo passo será decisivo. O clube pode escolher o caminho da revanche ou o da reconstrução. E se a liderança atual acredita mesmo que “não existem penas perpétuas”, então terá de provar que a disciplina serve para proteger o FC Porto, não para criar fantasmas. Porque, neste momento, os dragões não precisam de inimigos externos. Estão a fabricá-los dentro de casa.

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