O lance que marcou o Santa Clara – Sporting continua a incendiar o debate no futebol português e já extravasou o campo para se transformar num símbolo maior: a crise de confiança na arbitragem nacional. O alegado penálti cometido sobre Morten Hjulmand, assinalado por João Pinheiro com validação do VAR, não é apenas mais um caso polémico — é um retrato cru de um sistema que continua a errar, hesitar e a dividir-se internamente Хол
Dos sete antigos árbitros chamados a analisar o lance, cinco consideram que a grande penalidade foi mal assinalada. Dois defendem a decisão. Não há consenso absoluto, mas há algo mais grave: a maioria dos especialistas não vê falta suficiente para justificar uma decisão com impacto direto no resultado do jogo. Isso, por si só, devia acender todos os alarmes.
Maioria dos ex-árbitros aponta erro grave na decisão
A leitura dominante entre antigos árbitros é clara e desconfortável para a equipa de arbitragem. Pedro Henriques, no jornal A Bola, desmonta o lance de forma cirúrgica e sem rodeios. Existe contacto? Sim. Mas contacto não é sinónimo de infração. Segundo o ex-árbitro, o toque da mão esquerda no pescoço e na cara de Hjulmand acontece num salto, em curta distância, como consequência natural do movimento, sem intensidade nem efeito real na ação do jogador.
A conclusão é dura: penálti mal assinalado, com responsabilidades repartidas entre João Pinheiro e o VAR. Ou seja, falhou o árbitro de campo e falhou o sistema que existe precisamente para evitar erros claros e óbvios.
Marco Ferreira e Jorge Faustino, especialistas do Record, alinham pela mesma bitola. Ambos sublinham que o futebol não pode ser arbitrado como se fosse um desporto sem contacto e que lances desta natureza, quando não têm intensidade nem impacto, não podem resultar em grandes penalidades.
Marco Pina, na CMTV, reforça a ideia: o critério está a diluir-se perigosamente. Se este tipo de contacto passa a ser penálti, então o futebol entra num território onde qualquer choque mínimo na área se transforma numa infração capital.
A minoria que defende João Pinheiro… e o problema que isso levanta
Do outro lado da barricada surgem Jorge Coroado e Fortunato Azevedo. Ambos defendem a decisão da equipa de arbitragem, considerando que o contacto existiu e que, por isso, o penálti é defensável à luz das Leis do Jogo.
Aqui reside um problema estrutural sério: quando antigos árbitros, com décadas de experiência, analisam o mesmo lance e chegam a conclusões opostas, o problema já não é apenas o lance — é o critério. Um futebol profissional não pode viver refém de interpretações tão elásticas que permitem justificar tudo e o seu contrário.
A arbitragem não pode ser uma lotaria interpretativa. Se é preciso “defender” um penálti destes com argumentos altamente subjetivos, então algo está profundamente errado na forma como as regras são aplicadas em Portugal.
José Leirós reforça a tese do erro e isola O Jogo
No jornal O Jogo, José Leirós junta-se ao grupo maioritário e considera que João Pinheiro e o VAR erraram. O seu entendimento é simples: não há falta suficiente, não há gesto imprudente, não há ação negligente que justifique a marcação da grande penalidade.
Curiosamente, O Jogo acaba por ficar isolado enquanto órgão de comunicação, mas não enquanto análise técnica. A maioria dos ex-árbitros aponta no mesmo sentido, o que fragiliza ainda mais a decisão tomada no relvado.
Rui Costa e a ironia que expôs o clima de descrédito
Como se o caso não fosse já suficientemente inflamável, Rui Costa decidiu lançar gasolina na fogueira. O presidente do Benfica, após a reação oficial do clube, comentou o lance com ironia mordaz:
“Estive lá fora a ver mais um escândalo do futebol português e estive à espera que o árbitro desse penálti”.
A frase não é inocente. É um ataque direto à previsibilidade dos erros, à sensação de que certas decisões já são esperadas pelos agentes do futebol. Quando um presidente de um dos maiores clubes do país fala assim em público, o dano institucional é enorme.
Independentemente das cores clubísticas, esta reação revela algo preocupante: a perda total de credibilidade da arbitragem junto dos principais protagonistas do futebol português.
VAR: ferramenta de correção ou amplificador do erro?
O VAR voltou a falhar no seu propósito essencial. O sistema existe para corrigir erros claros e óbvios, não para validar decisões discutíveis com base em contactos mínimos. Neste caso, longe de ser uma rede de segurança, o VAR funcionou como selo de validação de um erro.
Isto levanta uma questão incontornável: o VAR está a ser usado para proteger decisões erradas em vez de corrigi-las? Quando o vídeo entra em ação e, mesmo assim, o erro subsiste, a confiança do público desaparece.
O impacto real no campeonato e no futebol português
Não se trata apenas de um penálti. Trata-se de pontos, classificações, pressão mediática e, sobretudo, da perceção de justiça desportiva. O Sporting beneficiou de uma decisão que a maioria dos especialistas considera errada. Amanhã será outro clube. O padrão repete-se.
Enquanto não houver critérios claros, comunicação transparente e responsabilização efetiva dos erros, o futebol português continuará preso a polémicas semanais, afastando adeptos e minando a sua própria credibilidade.
Conclusão: o penálti que simboliza um sistema em crise
O “penálti fantasma” no Santa Clara – Sporting não é um caso isolado. É um sintoma. Um sintoma de uma arbitragem que continua a oscilar entre a insegurança e o excesso de protagonismo, apoiada por um VAR que, demasiadas vezes, falha no momento decisivo.
Quando cinco em sete antigos árbitros dizem que a decisão foi errada, o debate devia estar encerrado. O problema é que, em Portugal, raramente está.
