No discurso dirigido aos colaboradores do Clube da Luz, Rui Costa fez o balanço de 2025 e lançou as bases do que pretende para 2026. O tom foi ambicioso, institucionalmente irrepreensível e emocionalmente calibrado. Mas, olhando para lá da retórica, a mensagem do Presidente do Sport Lisboa e Benfica levanta uma questão incontornável: a ambição proclamada está a ser acompanhada por decisões à altura da grandeza do clube?
O líder encarnado falou de identidade vencedora, exigência permanente e ambição sustentada. Tudo conceitos corretos. O problema é que, no Benfica, estas palavras já não bastam. O clube vive há anos num limbo entre o “quase” e o “devia ter sido”. E é exatamente aí que o discurso de Rui Costa merece ser analisado sem filtros.
Balanço de 2025: números fortes, impacto discutível
Rui Costa classificou 2025 como um ano histórico para o Benfica. E, nos factos objetivos, não mentiu. Ultrapassar a barreira dos 400 mil sócios, bater um recorde mundial de participação associativa com quase 94 mil votantes e marcar presença no primeiro Campeonato do Mundo de Clubes, chegando aos oitavos de final, são marcos relevantes.
Mas sejamos claros: grandeza institucional não substitui sucesso desportivo continuado.
O Benfica é — e sempre foi — um clube medido por títulos no futebol sénior masculino. Tudo o resto é complementar. E é aqui que o balanço de 2025 fica aquém da narrativa otimista. O clube manteve-se competitivo, sim. Dominante, não. Consistente, menos ainda.
O Presidente destacou ainda a excelência da formação no Benfica Campus e o lançamento da Benfica FM. São sinais de modernização e consolidação de marca. Mas nenhum benfiquista troca um projeto de comunicação por uma época europeia memorável.
Identidade vencedora: discurso certo, execução irregular
“Ganhar faz parte da nossa identidade”. A frase é poderosa. O problema é que a identidade não se proclama — pratica-se.
Nos últimos anos, o Benfica venceu, mas não dominou. Ganhou, mas não impôs ciclos. E isso, num clube com esta dimensão, é insuficiente. O discurso de Rui Costa fala em “ambição permanente” e “lucidez”. Ótimo. Mas a lucidez também obriga a reconhecer erros estratégicos: mercados mal atacados, plantéis desequilibrados, dependência excessiva de vendas e uma política desportiva que oscila entre o curto e o médio prazo.
A exigência começa dentro de casa. E começa no topo.
Arbitragem, penáltis e o risco da distração
O discurso surge dias depois de Rui Costa ter comentado o polémico penálti assinalado sobre Morten Hjulmand no Santa Clara – Sporting. Um episódio que incendiou o debate público e dividiu especialistas.
Aqui impõe-se franqueza: o Benfica tem razão em exigir respeito e critérios claros, mas não pode deixar que a narrativa da arbitragem se torne um álibi recorrente. Os grandes clubes controlam o que podem controlar. A obsessão com fatores externos costuma ser o primeiro sinal de perda de foco interno.
Se 2026 é para ser um ano de afirmação, o Benfica precisa de vencer apesar dos erros de arbitragem — não depender de eles não existirem.
2026: ambição total ou promessa reciclada?
“O Benfica entra em cada época para ganhar”. Rui Costa repetiu a frase. Repetiu bem. Mas agora o desafio é outro: ganhar em todas as competições não é um slogan — é uma estratégia operacional.
Para isso, 2026 exige:
• Um plantel curto, profundo e equilibrado, não inflacionado em quantidade nem frágil em posições-chave
• Um treinador com respaldo total ou uma mudança clara — não zonas cinzentas
• Uma política de mercado que priorize rendimento imediato, e não apenas valorização futura
• Coragem para reter ativos decisivos, mesmo que isso custe vendas milionárias
Sem isto, a ambição fica no papel.
Formação: orgulho legítimo, mas não pode ser muleta
A “fábrica de talentos” do Benfica Campus voltou a ser elogiada. Com razão. Poucos clubes europeus produzem tanto e tão bem. Mas há um risco silencioso: transformar a formação numa muleta para justificar ciclos incompletos no futebol profissional.
Formar não chega. É preciso integrar, potenciar e — sobretudo — ganhar com esses jogadores. O Ajax forma. O Benfica forma. Mas quem constrói hegemonias é quem consegue manter os melhores tempo suficiente para criar identidade competitiva.
Colaboradores e estrutura: a base invisível do sucesso
O agradecimento de Rui Costa aos colaboradores do Clube da Luz foi um dos momentos mais genuínos do discurso. E aqui não há ironia possível: sem estrutura forte, não há clube grande.
No entanto, liderança também implica proteger essas estruturas de decisões erráticas no topo. A estabilidade interna não pode ser sacrificada por pressões externas, ciclos eleitorais ou ruído mediático.
Conclusão: o Benfica precisa de mais coragem do que palavras
O discurso de Rui Costa foi correto, inspirador e alinhado com a grandeza do Sport Lisboa e Benfica. Mas o clube já não precisa de discursos certos — precisa de decisões difíceis.
2026 será o verdadeiro teste:
• Ou o Benfica assume o risco de querer tudo e paga o preço
• Ou continua confortável a ganhar “o suficiente”
A história do clube exige a primeira opção. Tudo o resto é gestão de expectativas.
O Benfica não foi feito para prometer. Foi feito para dominar.
