A reação de Gianluca Prestianni ao polémico penálti assinalado a favor do Sporting frente ao Santa Clara não foi apenas um desabafo juvenil nas redes sociais. Foi um sintoma claro de algo muito mais profundo: o esgotamento da paciência de quem ainda acredita que o futebol português pode ser competitivo, credível e respeitado. Dois emojis com a mão na cara, publicados na rede social X, disseram mais do que muitos comunicados oficiais cuidadosamente redigidos.
O lance em causa, envolvendo Morten Hjulmand na Taça de Portugal, voltou a colocar a arbitragem nacional no centro da polémica e reacendeu um debate que já não é técnico — é estrutural, político e, sobretudo, moral.
Um penálti que ninguém vê… exceto quem decide
O problema não é apenas a marcação de uma grande penalidade duvidosa. O problema é a repetição do padrão. Jogada revista, discutida, analisada ao milímetro, e ainda assim validada por quem tem acesso a todas as ferramentas tecnológicas disponíveis. Quando cinco em sete especialistas de arbitragem consideram a decisão errada, não estamos perante um “caso interpretativo”. Estamos perante um erro grosseiro normalizado.
Pedro Henriques, Marco Ferreira, Jorge Faustino, Marco Pina e José Leirós foram claros: não há falta, não há contacto relevante, não há penálti. Do outro lado, apenas Jorge Coroado e Fortunato Azevedo defenderam a decisão de João Pinheiro. Esta divisão não cria equilíbrio — cria desconfiança. E a desconfiança é veneno para qualquer competição.
Prestianni: reação impulsiva ou lucidez precoce?
Há quem tente desvalorizar a reação de Prestianni por ser jovem, estrangeiro e pouco influente no balneário. Erro crasso. Precisamente por ser jovem e recém-chegado, a sua incredulidade é reveladora. Ele ainda não está anestesiado. Ainda não aprendeu a aceitar o absurdo como normal.
Ao partilhar o vídeo do lance e reagir com ironia silenciosa, o extremo argentino fez aquilo que muitos pensam, mas não dizem. Não acusou diretamente, não incendiou o discurso, não pediu cabeças. Limitou-se a mostrar o lance. E isso é devastador, porque o vídeo fala por si.
A posição oficial do Benfica: dura, mas insuficiente
A reação pública do Benfica segue a mesma linha de indignação, com palavras fortes e acusatórias: “É preciso que alguém seja responsável por este descrédito total que está a matar o futebol português”. A frase é correta. O diagnóstico está certo. Mas a pergunta incômoda mantém-se: e depois?
O clube da Luz tem razão ao apontar o dedo ao sistema, mas continua preso a comunicados e declarações que, na prática, não alteram nada. A densidade do calendário não é o problema central. O problema é a previsibilidade das decisões em momentos-chave. Quando os campeonatos parecem decididos antes de começarem, não é teoria da conspiração — é percepção coletiva. E a percepção, no futebol, vale tanto quanto os factos.
Rui Costa ironiza, mas o cenário é trágico
No jantar de Natal, Rui Costa optou pela ironia: pediu desculpa pelo atraso porque estava “à espera que o árbitro desse penálti” noutro jogo polémico. A sala riu. Mas o riso foi nervoso. Porque quando um presidente histórico do futebol português recorre ao sarcasmo para falar de arbitragem, é sinal de falência institucional.
A ironia é o último recurso de quem já não acredita em reformas reais. E esse é o verdadeiro problema: ninguém acredita que algo vá mudar.
Arbitragem portuguesa: um sistema sem consequências
O erro isolado é humano. O erro recorrente é sistémico. E um sistema sem consequências está condenado à degradação. Árbitros erram, VAR valida, relatórios são arquivados, e o futebol segue. Não há suspensões claras, não há explicações públicas consistentes, não há prestação de contas.
Enquanto isso, clubes perdem pontos, treinadores perdem empregos e jogadores perdem valor de mercado. Sim, valor de mercado.
O futuro incerto de Prestianni na Luz
No meio deste caos, Gianluca Prestianni vive um momento delicado. Dois golos em 18 jogos não são números que imponham respeito num clube com ambições europeias. Rumores de uma possível transferência para o River Plate na próxima janela de mercado ganham força, alimentados por uma época irregular e por uma adaptação ainda incompleta ao futebol português.
Mas reduzir o debate ao rendimento individual é preguiçoso. Jogadores jovens precisam de contexto estável para crescer. Precisam de competição justa, critérios claros e confiança no sistema. Quando isso não existe, o talento estagna ou foge.
E se Prestianni sair, não será apenas uma perda desportiva. Será mais um sinal de que o futebol português continua a expulsar talento em vez de o potenciar.
O dano real vai além de um jogo
O penálti fantasma não decide apenas uma eliminatória. Decide narrativas, influencia mercados, molda campeonatos e corrói a credibilidade externa da liga. Patrocinadores observam. Jogadores observam. Adeptos desligam.
O futebol português não está a ser morto por críticas. Está a ser morto pela ausência de coragem para mudar.
Enquanto isso, emojis continuam a dizer verdades que dirigentes não conseguem — ou não querem — assumir.
E esse é o retrato mais brutal de todos.
