O Sporting tem feito um esforço claro para proteger os seus ativos mais valiosos e evitar repetir erros recentes do passado. As renovações de Gonçalo Inácio e Pedro Gonçalves (Pote) foram sinais evidentes de planeamento e estabilidade, enquanto os dossiês de Ousmane Diomande e Geny Catamo terão ficado alinhavados antes da saída para a Taça Africana das Nações. No entanto, em Alvalade sabe-se que o trabalho está longe de terminado.
Os próximos nomes na lista são Francisco Trincão e Maxi Araújo — dois jogadores em contextos completamente distintos, mas que expõem a mesma realidade: o Sporting quer segurar talento, mas não pode fingir que compete financeiramente com tubarões europeus.
Renovar é obrigatório, não é virtude
Comecemos pelo óbvio: renovar contratos não é sinal de génio estratégico, é o mínimo exigível a uma SAD que quer ser competitiva. O Sporting deixou, durante anos, ativos valorizarem sem proteção contratual adequada e pagou caro por isso. Desta vez, a Direção tenta antecipar problemas — e faz bem.
Mas há um erro recorrente no discurso público: apresentar renovações como vitórias absolutas. Não são. São movimentos defensivos. Servem para ganhar tempo, margem negocial e, sobretudo, dinheiro numa futura venda.
Francisco Trincão: peça-chave… até alguém pagar
O caso de Francisco Trincão é o mais sensível e revela bem as limitações do Sporting no mercado atual. O internacional português é, neste momento, um dos jogadores mais influentes do plantel, com impacto direto no rendimento ofensivo e na identidade da equipa. Rui Borges já o assumiu publicamente e a SAD age em conformidade.
A proposta em cima da mesa passa por um contrato até 2030 e um salário a rondar os 3 milhões de euros líquidos por época, o que o colocaria no topo da hierarquia salarial do plantel. Aqui, o Sporting está a esticar a corda — e sabe disso. Não é sustentável subir muito mais sem criar desequilíbrios internos.
O problema maior não é o salário. É a cláusula de rescisão.
Cláusula de 100 milhões? Realismo precisa-se
A intenção leonina de subir a cláusula de Trincão de 60 para 100 milhões de euros soa bem nos comunicados, mas não engana ninguém no mercado. Nenhum clube da Premier League paga 100 milhões por um jogador nestes moldes, a não ser em contextos muito específicos.
Os representantes do jogador apontam para os 80 milhões e, aqui, estão a ser mais realistas do que o próprio Sporting. Uma cláusula serve para proteger, mas também para manter credibilidade. Se for irrealista, transforma-se apenas em ruído.
A verdade incómoda é esta: se aparecer uma proposta forte — entre 45 e 60 milhões — o Sporting vai vender. Renovação ou não, estatuto ou não. O resto é retórica.
A cobiça inglesa não é um detalhe
Não é coincidência que vários clubes da Premier League estejam atentos à situação de Trincão. O perfil agrada: técnico, ainda relativamente jovem, experiência internacional e margem de valorização. O Sporting sabe que não controla este jogo — apenas tenta posicionar-se melhor nele.
Renovar agora é ganhar poder negocial. Não é garantir permanência a médio prazo.
Maxi Araújo: valorização silenciosa, risco real
Se Trincão é o dossiê mediático, Maxi Araújo é o caso que exige inteligência estratégica. Contratado no verão de 2024, o internacional uruguaio assinou até 2029, com um salário entre 600 e 700 mil euros líquidos por ano — valores claramente abaixo do impacto que tem vindo a demonstrar.
Segundo o jornal Record, o Sporting já iniciou contactos para rever as condições contratuais. Aqui, a SAD está correta em agir cedo. Esperar mais uma época seria repetir erros clássicos: jogador afirma-se, mercado aparece, contrato desajustado torna-se um problema.
Atalanta e Nápoles não estão a dormir
O interesse de Atalanta e Nápoles não é um rumor inofensivo. São clubes que sabem comprar bem, valorizam talento sul-americano e não têm problemas em avançar rapidamente quando veem oportunidade. Se o Sporting não ajustar o contrato de Maxi Araújo agora, estará a criar um problema para resolver mais tarde — e em piores condições.
Aumentar o salário não é um prémio, é um investimento. E, neste caso, é barato comparado com o custo de perder controlo negocial.
O padrão é claro — e os riscos também
O Sporting está a fazer o que deve, mas não pode iludir-se: renovar não significa blindar o plantel. Significa apenas atrasar decisões inevitáveis e tentar maximizá-las financeiramente.
Há um equilíbrio delicado entre ambição desportiva e sustentabilidade financeira. Se a SAD ceder demasiado em salários, cria problemas internos. Se for demasiado rígida, perde jogadores no momento errado.
Conclusão: competência exige frieza
Alvalade vive um momento de relativa estabilidade, mas isso não autoriza complacência. Os dossiês de Trincão e Maxi Araújo vão testar a maturidade da estrutura leonina. Não em palavras, mas em decisões concretas.
O Sporting não precisa de promessas grandiosas nem de cláusulas irrealistas. Precisa de frieza, timing e coragem para vender quando o mercado dita — e não quando já é tarde demais.
Renovar é importante. Saber quando segurar e quando deixar sair é o que separa clubes bem geridos de clubes apenas bem-intencionados.
