O Sporting vai ao mercado de inverno, mas não vai à deriva. A estrutura leonina tem um plano claro, um perfil bem definido e um teto financeiro rígido: 15 milhões de euros para contratar um extremo. Num clube que tantas vezes confundiu urgência com precipitação, esta abordagem é tudo menos inocente — e também tudo menos isenta de riscos.
Com Pedro Gonçalves lesionado e Geny Catamo ausente, Rui Borges ficou com um problema que não se resolve com discursos motivacionais nem com adaptações forçadas. O plantel perdeu desequilíbrio, imprevisibilidade e capacidade de decidir no último terço. E, ao contrário do que alguns querem fazer passar, isto não é um detalhe: é uma falha estrutural que ameaça objetivos desportivos e financeiros.
A resposta do Sporting é direta: comprar, não emprestar; experiência controlada, não promessas cruas; Europa, não apostas exóticas. Mas será suficiente?
Rui Borges exigiu um perfil específico — e a Direção alinhou
Segundo informações veiculadas pelo Record, nas últimas semanas houve reuniões regulares entre Frederico Varandas, Rui Borges, Bernardo Palmeiro e Flávio Costa, responsável pelo scouting. Dessas conversas saiu uma conclusão óbvia: não vale a pena gastar dinheiro se o reforço não encaixar imediatamente.
O perfil definido é claro e, curiosamente, restritivo:
• Atacante destro
• Preferencialmente a atuar como extremo esquerdo
• Capaz de jogar também à direita ou como 10
• Idade máxima entre 24 e 25 anos
• Já adaptado ao futebol europeu
• Compra definitiva, sem empréstimos
Isto não é fetichismo tático. É pragmatismo. Rui Borges quer um jogador que entre, jogue e produza. Sem meses de adaptação, sem desculpas climáticas, sem o clássico “precisa de tempo”.
Aqui há uma mensagem implícita que importa sublinhar: o treinador não quer ser refém da formação nem das circunstâncias. Quer opções reais.
15 milhões: investimento calculado ou limite perigoso?
O valor disponível — 15 milhões de euros — revela duas coisas. Primeiro, o Sporting reconhece que subinvestiu na profundidade ofensiva. Segundo, continua a jogar num equilíbrio frágil entre ambição e contenção financeira.
Se olharmos para o mercado europeu atual, 15 milhões não compram certezas absolutas. Compram bons jogadores em contextos específicos ou atletas que ainda precisam de dar o salto competitivo. O risco existe e é elevado, sobretudo quando a margem de erro é curta.
Aqui está o dilema:
• Gastar menos pode significar continuar curto
• Gastar tudo pode bloquear movimentos futuros
O Sporting está a tentar fazer malabarismo financeiro num mercado inflacionado. Não é impossível, mas exige execução perfeita — algo que, historicamente, nem sempre foi o forte da SAD.
Yeremay Hernández: desejo legítimo, mas completamente irrealista
Yeremay Hernández continua referenciado e agrada muito a Rui Borges. Tecnicamente, faz todo o sentido: desequilíbrio, criatividade, capacidade de jogar por dentro e por fora. O problema? Custa cerca de 50 milhões de euros.
Aqui não há romantismo possível. O Sporting não está sequer perto de conseguir este jogador. Manter o nome em cima da mesa é mais exercício de sonho do que de estratégia. Se o Depor não baixar drasticamente as exigências, Yeremay é um não-assunto.
Insistir neste tipo de alvo só cria ruído mediático e expectativas irrealistas nos adeptos. O clube precisa de foco, não de ilusões.
Konstantelias agrada, mas o PAOK não quer vender
Outro nome em análise é Giannis Konstantelias, internacional grego e uma das principais figuras do PAOK. Tecnicamente evoluído, com experiência europeia e ainda margem de progressão, encaixa melhor no orçamento leonino.
Mas há um obstáculo óbvio: o PAOK não quer vender em janeiro. E quando um clube não quer vender a meio da época, ou paga-se acima do valor real ou sai-se de mãos vazias.
O Sporting tem de decidir rapidamente se entra numa guerra negocial desgastante ou se vira a página. Perder semanas atrás de um alvo inacessível seria um erro estratégico grave — sobretudo com o calendário a apertar.
Formação ganha espaço — por mérito e por necessidade
Enquanto o mercado não se resolve, Salvador Blopa e Flávio Gonçalves vão aproveitando a oportunidade. Não por caridade, mas porque mostraram que conseguem competir.
Há aqui um ponto que convém esclarecer: apostar na formação é positivo, mas não pode ser usado como muleta para falhas de planeamento. Os jovens estão a responder, sim, mas exigir-lhes que resolvam problemas estruturais é injusto e perigoso.
Mesmo com a chegada de um reforço, tudo indica que ambos continuarão a ser opção nas convocatórias. Isso é saudável. O que não seria saudável é adiar a contratação com base numa confiança exagerada.
O mercado de inverno não perdoa erros
Janeiro é um mercado ingrato. Pouco tempo, preços inflacionados e clubes relutantes em negociar. O Sporting sabe disso e, por isso, fechou critérios cedo.
Mas critérios não ganham jogos. Jogadores sim.
Rui Borges foi claro: quer um extremo que faça a diferença agora, não em 2026. Se a Direção falhar este dossiê, o impacto será imediato — na Liga, na Europa e na perceção de competência do projeto.
A questão final é simples e desconfortável:
o Sporting vai contratar alguém que eleva o nível ou apenas alguém que preenche uma vaga?
Porque isso, e só isso, separa um mercado bem-sucedido de mais um remendo caro.
