Francesco Farioli foi eleito Treinador do Mês de dezembro da Liga portuguesa, com 41,03% dos votos dos colegas de profissão. Os números sustentam a escolha: quatro jogos, quatro vitórias, dez golos marcados e apenas um sofrido. À superfície, parece uma decisão óbvia. Mas se ficares só aí, estás a perder a história inteira.
A distinção diz tanto sobre o momento do FC Porto como sobre as fragilidades estruturais do campeonato e o peso político — ainda real — do clube azul e branco. O prémio é justo? Sim. É indiscutível? Nem por isso.
Um dezembro perfeito… no papel
Os dados são claros e não admitem discussão básica. Durante o período avaliado, o FC Porto foi implacável em termos de resultados. Não houve tropeços, não houve empates estratégicos, não houve jogos “cinzentos” na tabela classificativa. Houve vitórias.
Num campeonato onde a regularidade continua a ser o maior problema da maioria das equipas, Farioli apresentou exatamente aquilo que os votantes valorizam: eficácia imediata. Dez golos marcados mostram uma equipa ofensiva, confortável com bola, enquanto o único golo sofrido revela controlo e organização defensiva.
Mas atenção: resultados não são sinónimo automático de superioridade técnica. São, isso sim, reflexo de contexto, calendário, profundidade de plantel e margem de erro — e aqui o FC Porto joga noutra liga.
O impacto real de Farioli no FC Porto
É impossível ignorar que Farioli trouxe uma identidade clara. A equipa pressiona mais alto, circula a bola com mais critério e apresenta uma saída limpa desde trás, algo que não era consistente em fases anteriores.
Há, no entanto, um ponto que muitos evitam tocar: o FC Porto já tinha uma base competitiva sólida. Farioli não pegou num projeto falido nem numa equipa em reconstrução profunda. Herdou um plantel preparado para ganhar no imediato.
O mérito do treinador está em não estragar o que já funcionava e em otimizar processos. Isso é competência. Mas não é revolução. Quem vende esta fase como um milagre táctico está a exagerar — ou a vender cliques.
A votação diz mais sobre o sistema do que parece
Farioli venceu com folga, mas o segundo lugar levanta uma questão séria: Luís Silva, treinador-adjunto do Estrela da Amadora, ficou em segundo com 13,68% dos votos.
Aqui entra o absurdo institucional. Na ficha de jogo, quem surge como treinador principal é o adjunto, não João Nuno, o treinador “real”. Resultado? Um prémio de treinador do mês em que os votos não refletem a liderança efetiva.
Isto não é um detalhe administrativo. É um erro estrutural da Liga que distorce a leitura pública do mérito. Se a competição quer ser levada a sério, não pode continuar a premiar cargos formais em vez de responsabilidades reais.
Estrela da Amadora: desempenho acima das expectativas
Dito isto, convém ser justo: o Estrela da Amadora fez um mês competitivo. Em cinco jogos, perdeu apenas um — precisamente frente ao FC Porto — e conseguiu empates frente a Sp. Braga e Moreirense.
Para um clube com recursos limitados, estes resultados são relevantes. Mas há uma diferença clara entre superar expectativas e dominar o campeonato. O segundo lugar na votação reflete simpatia e reconhecimento contextual, não superioridade objetiva.
José Mourinho no pódio: nome maior que o mês?
O terceiro classificado foi José Mourinho, do Benfica, com 11,11% dos votos. E aqui convém ser direto: o nome pesa.
Mourinho continua a ser uma figura que influencia votações, atenção mediática e leitura pública. O Benfica teve um mês sólido, mas não dominante. O pódio de Mourinho parece mais um reflexo da sua aura e da centralidade do Benfica do que um reconhecimento inequívoco de superioridade mensal.
Isto não invalida o trabalho. Mas expõe uma verdade incómoda: nem todos os votos são puramente técnicos.
Treinador do mês não é treinador da época
É aqui que muitos erram — e onde a análise superficial faz estragos. Este prémio não define hierarquias definitivas, não garante sucesso futuro e não blinda ninguém contra crises.
O futebol português está cheio de exemplos de treinadores que brilharam num mês e desapareceram no seguinte. A exigência no FC Porto não permite acomodação. Dezembro passou. Janeiro e fevereiro trazem outro tipo de pressão, outro desgaste e outro nível de exposição.
Se Farioli quer transformar este prémio em algo mais do que uma nota de rodapé, terá de provar consistência quando o calendário apertar e os jogos grandes chegarem em série.
O que este prémio realmente significa
No fundo, a eleição de Francesco Farioli como Treinador do Mês da Liga portuguesa significa três coisas claras:
1. O FC Porto foi a equipa mais eficaz no período avaliado
2. Farioli demonstrou capacidade de gestão e organização
3. O sistema de votação continua a ter falhas evidentes
É um prémio merecido, mas não é um selo de excelência absoluta. É um reconhecimento pontual, dependente de contexto, calendário e poder estrutural.
Quem o trata como consagração definitiva está a iludir-se.
Conclusão: mérito com reservas
Francesco Farioli fez por merecer o prémio. Os números não mentem. Mas também não contam tudo. O verdadeiro teste não está num troféu simbólico mensal, mas na capacidade de sustentar rendimento quando a margem de erro desaparecer.
No FC Porto, ninguém vive de prémios. Vive-se de títulos. E isso, para Farioli, ainda está todo por provar.
