O futebol gosta de vender-se como entretenimento puro, mas a verdade é outra: por trás de cada jogador há um ser humano, com dores que não cabem num placar nem se medem por estatísticas. Em Amesterdão, na vitória por 2-0 frente ao Ajax, o Benfica não saiu apenas com três pontos cruciais para a Liga dos Campeões. Saiu com uma história que toca o lado humano do jogo e desmascara um sacrifício que dificilmente seria assumido por todos.
Amar Dedic, lateral-direito internacional pela Bósnia e Herzegovina, esteve em campo horas depois de perder a avó — a figura que ele próprio tratava como uma segunda mãe. O jogador faltou ao funeral para poder disputar a partida. Não é um detalhe. É um retrato de compromisso, pressão e escolhas que nem sempre deveriam ser impostas a um atleta profissional. E o momento de comunhão que o Benfica divulgou no balneário é a outra face dessa mesma moeda: a de um grupo que, pela primeira vez em semanas, parece ter entendido que jogar em equipa é muito mais que ganhar jogos.
O sacrifício de Amar Dedic: quando o futebol exige mais do que devia
Nenhum treinador exige verbalmente a um jogador que abdique do luto familiar. É óbvio. Mas, na prática, a cultura do futebol profissional cria um ambiente em que a ausência do atleta é percebida como fragilidade, falta de compromisso ou “não ser competitivo o suficiente”. Dedic, recém contratado, a lutar por espaço num plantel exigente e sob a constante lupa da crítica, sabia que a sua decisão seria interpretada dentro deste sistema.
Ele escolheu jogar. Não porque a dor fosse pequena, mas porque a pressão era grande. Uma escolha que, no futebol moderno, é interpretada como “profissionalismo”, quando, na verdade, pode ser um sinal de que a máquina exige muito mais do que deveria.
Dedic jogou com a cabeça algures entre Amesterdão e Sarajevo. Jogou por dever, por ambição e pela memória da mulher que chamou de segunda mãe. Jogou porque o futebol raramente deixa espaço para outra coisa que não o próprio futebol.
Um balneário que precisou de uma tragédia para se unir
Após a vitória por 2-0 diante do Ajax, o Benfica partilhou imagens que mostram o plantel reunido no balneário. Não foi uma celebração efusiva, nem apenas um discurso motivacional. Foi um momento de luto coletivo, revelado após a intervenção do diretor-geral Mário Branco, que informou os jogadores sobre a perda de Dedic.
O grupo cercou o lateral, abraçou-o e dedicou-lhe a vitória. Num instante raro, as câmaras registaram aquilo que normalmente só se vê quando o futebol deixa cair a máscara: união genuína, silêncio respeitoso e apoio que não depende de resultados.
O ambiente competitivo, que tantas vezes parece corroer o vínculo entre jogadores, técnicos e direção, subitamente deu lugar à solidariedade. Não houve tática capaz de produzir isso. Foi necessário algo doloroso. E isso diz muito sobre como as estruturas rígidas do futebol profissional abafam a humanidade dos atletas até que uma tragédia irrompa para forçar a empatia.
O impacto emocional e a leitura competitiva: o sacrifício converte-se em narrativa
A vitória do Benfica na Liga dos Campeões era crucial para as contas europeias. No plano desportivo, o triunfo é visto como porta aberta para manter ambições no torneio e reduzir a instabilidade recente. Mas, quando a história de Dedic entrou em cena, o resultado ganhou outra camada.
Os adeptos, que muitas vezes reduzem jogadores a “máquinas de rendimento”, foram confrontados com algo emocionalmente impossível de ignorar. O futebol, que insiste em parecer uma indústria imune ao lado humano, subitamente expôs a sua fragilidade. A narrativa mudou: o jogo deixou de ser apenas sobre ataque, defesa e golos. Passou a ser sobre caráter, sacrifício e empatia.
E, goste-se ou não, episódios como este fortalecem a imagem pública do clube. A dedicatória à vitória, o discurso no balneário, os abraços, tudo isso cria uma mensagem: o Benfica não é apenas uma equipa de futebol, é um grupo que sabe proteger um dos seus quando é preciso.
Mas é importante questionar: o futebol tem a obrigação moral de criar estes gestos de união só quando a dor é extrema? Ou deveria cultivá-los antes?
Futebol moderno: entre o mito da força e a ignorância emocional
É comum exigir que atletas “sejam fortes”. O discurso da superação, da virilidade emocional, da resiliência constante faz parte da cultura do desporto. Mas este modelo tem um custo: invisibiliza o sofrimento e transforma o luto, a ansiedade ou a depressão em sinais de fraqueza.
Num ambiente onde o rendimento determina carreiras, perdas familiares tornam-se secundárias. O caso de Dedic escancara essa realidade: ninguém o obrigou a jogar, mas tudo o empurrou para isso.
O futebol profissional não está preparado para lidar com emoções humanas profundas. O que aconteceu no balneário é comovente, mas também revela um vazio estrutural. Os clubes precisam de redes de apoio psicológico constantes, não apenas discursos pontuais depois de vitórias marcadas pela dor.
Conclusão: Dedic mostrou força, mas o futebol precisa mostrar humanidade
O Benfica ganhou em Amesterdão. Sim. Mas há vitórias que não deveriam ser celebradas apenas pelo resultado. Amar Dedic sacrificou um ritual fundamental — o adeus a quem amou e o criou. É um gesto forte, mas não deveria ser normalizado.
O balneário emocionado, a dedicação da vitória ao lateral, os abraços, o reconhecimento público: tudo isso é bonito, mas também é sintoma de um problema maior. O futebol só aceita a humanidade dos seus atletas quando ela dói demais para ser escondida.
Dedic provou compromisso. Agora é o futebol que deve provar que sabe cuidar das pessoas que o fazem existir.
Se há algo a celebrar nesta história, não é a vitória, mas sim a urgência de um desporto mais humano. Porque antes de serem jogadores, eles são netos, filhos, pais, irmãos. E nenhum golo vale mais do que isso.

0 Comentários