346 milhões de lucro: Benfica domina mercado… mas a que preço desportivo?

 


O Benfica voltou a colocar o seu nome no radar do futebol europeu, desta vez não por um resultado em campo, mas por números que impressionam qualquer gestor desportivo. Um estudo internacional divulgado pelo Observatório do Futebol (CIES) coloca as águias no topo dos clubes que mais dinheiro geraram no mercado de transferências nos últimos cinco anos. E não estamos a falar de trocos: um saldo positivo de 346 milhões de euros, resultado de uma política agressiva e consistente de compra e venda de jogadores.


Num futebol cada vez mais dominado por gigantes financeiros da Premier League e por clubes-estado, o Benfica destaca-se como um verdadeiro “player” global no mercado de transferências. Mas o que significam estes números? E, mais importante, até que ponto este modelo é sustentável?


Benfica lidera ranking internacional do CIES


De acordo com o estudo do CIES, o Benfica é o clube com melhor saldo financeiro nas últimas janelas de transferências, entre 2020 e 2025. Durante este período, o clube da Luz registou 811 milhões de euros em vendas, contra 465 milhões investidos em reforços. O resultado é um impressionante saldo positivo de 346 milhões de euros.


Foram 135 atletas transferidos ao longo destes cinco anos, um número que demonstra não apenas capacidade de valorização, mas também uma forte rotação de plantel. O Benfica não é apenas um clube vendedor; é uma verdadeira plataforma de lançamento para jogadores que rapidamente dão o salto para os maiores palcos do futebol europeu.


Este dado não surge por acaso. É fruto de uma estratégia consolidada que mistura scouting internacional, aposta na formação e timing certo de venda.


As grandes vendas que impulsionaram o saldo milionário


Entre os negócios mais mediáticos está a transferência de Enzo Fernández para o Chelsea, por 121 milhões de euros. Um encaixe histórico que confirmou a capacidade do Benfica em transformar talento emergente em ativo de elite em poucos meses.


Darwin Núñez, vendido ao Liverpool por 85 milhões de euros, é outro exemplo de valorização exponencial. Chegou relativamente jovem, evoluiu sob pressão competitiva e saiu como um dos avançados mais caros da Europa.


João Neves, transferido para o Paris Saint-Germain por 65 milhões de euros, e Álvaro Carreras, recentemente vendido ao Real Madrid por 50 milhões, reforçam esta tendência: o Benfica não vende apenas promessas, vende jogadores já preparados para clubes de topo.


Estes negócios explicam grande parte dos 811 milhões arrecadados e consolidam a imagem do clube como especialista em mais-valias no mercado de transferências.


Investimento elevado, mas controlado


É verdade que o Benfica gastou 465 milhões de euros no mesmo período. Não se trata de uma política conservadora ou de baixo risco. Pelo contrário, há uma clara disposição para investir forte quando identifica potencial de valorização.


Orkun Kokçu (30 milhões), Richard Ríos (27 milhões), Franjo Ivanovic (23 milhões) e Marcos Leonardo (22 milhões) figuram entre as contratações mais caras. Nem todas tiveram o impacto esperado — Ivanovic, por exemplo, tem somado poucos minutos —, o que levanta questões sobre o critério e a margem de erro.


Mas aqui está o ponto-chave: mesmo com apostas que não renderam desportivamente, o modelo global continua altamente lucrativo. O Benfica aceita que nem todos os investimentos se transformem em jackpots, desde que o portefólio global gere lucro consistente.


Modelo Benfica: sustentabilidade ou dependência de vendas?


A pergunta inevitável é se este modelo financeiro é sustentável a longo prazo. Liderar o ranking do CIES é motivo de orgulho, mas também expõe uma realidade: o Benfica depende fortemente da venda de jogadores para manter equilíbrio financeiro.


Num contexto em que as receitas televisivas da Liga portuguesa estão muito abaixo das principais ligas europeias, o mercado de transferências tornou-se a principal fonte de crescimento. Isso implica pressão constante para descobrir, desenvolver e vender talento.


O risco? Que a competitividade desportiva sofra com a saída recorrente das principais figuras. Manter um ciclo contínuo de reconstrução pode comprometer a estabilidade da equipa em competições europeias.


Por outro lado, o clube tem conseguido equilibrar contas e resultados internos, mantendo-se competitivo no campeonato português. A questão central é saber se conseguirá dar o próximo passo na Europa sem abdicar do modelo vendedor.


Comparação com FC Porto e outros clubes europeus


O FC Porto surge como o segundo clube português melhor posicionado neste ranking, ocupando o sétimo lugar, com um saldo positivo de 178 milhões de euros. Um valor relevante, mas significativamente inferior ao registado pelo rival da Luz.


No top-10 também aparecem clubes como Ajax, PSV e Mónaco — todos conhecidos por modelos semelhantes de valorização e venda de jogadores. Isso não é coincidência. Estamos a falar de ligas intermédias, que funcionam como trampolim para campeonatos mais ricos.


A diferença é que o Benfica conseguiu destacar-se até mesmo neste grupo, ultrapassando históricos especialistas na formação e venda de talento.


Rui Costa e a consolidação da estratégia


Sob liderança de Rui Costa, o Benfica manteve e até ampliou a estratégia de mercado já iniciada em ciclos anteriores. O discurso pode variar, mas os números mostram continuidade.


Há uma visão clara: investir em jogadores jovens com potencial internacional, dar-lhes palco na Liga dos Campeões e vendê-los no auge. É uma abordagem empresarial aplicada ao futebol moderno.


Contudo, liderança não se mede apenas por lucros. A pressão dos adeptos é por títulos e impacto europeu. Se os resultados desportivos não acompanharem os financeiros, o sucesso do modelo será questionado.


Impacto no futebol português


O facto de dois clubes portugueses figurarem entre os mais lucrativos do mundo no mercado de transferências demonstra a capacidade do futebol nacional em produzir e valorizar talento.


Mas também revela uma fragilidade estrutural: Portugal continua a ser um exportador líquido de jogadores. A incapacidade de reter talento por mais tempo limita a competitividade das equipas portuguesas nas fases decisivas das competições europeias.


Enquanto as receitas televisivas e comerciais não se aproximarem das grandes ligas, o mercado continuará a ser a principal fonte de sobrevivência e crescimento.


Conclusão: gestão exemplar ou modelo de risco?


O Benfica liderar o ranking do CIES com um saldo positivo de 346 milhões de euros não é apenas um dado estatístico — é a confirmação de um modelo de negócio altamente eficiente no mercado de transferências.


Os números impressionam e colocam o clube à frente de gigantes europeus. No entanto, eficiência financeira não garante automaticamente supremacia desportiva.


A grande questão estratégica é esta: o Benfica quer ser apenas o melhor vendedor da Europa ou ambiciona transformar este poder financeiro em domínio consistente dentro e fora de Portugal?


Os próximos anos dirão se este ciclo de vendas milionárias será lembrado como a base de uma era dourada… ou apenas como um período de excelência financeira num futebol cada vez mais desigual.

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