Andebol português no espelho: Benfica acusa Avanca de difamação e reacende debate incómodo

 


O Benfica quebrou o silêncio na tarde deste domingo e respondeu de forma dura ao comunicado emitido pelo Artística de Avanca, que acusou o clube da Luz de ter forçado uma vitória administrativa nos 16-avos de final da Taça de Portugal de andebol. Em causa está a não realização do encontro no Pavilhão Municipal Comendador Adelino Dias Costa, alegadamente por falta de condições de segurança, nomeadamente ao nível do piso.


A polémica, que rapidamente ultrapassou o âmbito desportivo, expõe fragilidades estruturais recorrentes no andebol português e levanta questões sérias sobre responsabilidade, vitimização e instrumentalização mediática das decisões regulamentares.


O comunicado do Avanca e a acusação ao Benfica


Horas antes da resposta encarnada, o Artística de Avanca publicou um comunicado onde afirmava que a delegada ao jogo e a equipa de arbitragem teriam considerado reunidas as condições de segurança, o que permitiria a realização da eliminatória no sábado. O clube acusou ainda o Benfica de ter pressionado para uma vitória administrativa, insinuando má-fé e falta de espírito competitivo.


Esta narrativa, embora emocionalmente eficaz, assenta num pressuposto frágil: a ideia de que um clube visitante tem poder decisório sobre a validação das condições de um recinto — algo que não corresponde à realidade regulamentar.


A versão do Benfica: regulamento, não conveniência


Na resposta oficial, o Benfica foi claro e pouco diplomático. Segundo as águias, a delegada ao jogo, em articulação com a equipa de arbitragem, voltou a considerar que o pavilhão não reunia condições, em particular no que diz respeito ao piso, ativando assim o mecanismo de vitória administrativa previsto no regulamento da Federação de Andebol de Portugal (FAP).


O clube foi mais longe e rejeitou qualquer leitura circunstancial do problema, lembrando que não é a primeira vez que o pavilhão em questão falha em inspeções para jogos oficiais, independentemente das condições meteorológicas. Ou seja, não se trata de um episódio isolado, mas de um problema estrutural conhecido.


Difamação ou desresponsabilização?


O ponto mais duro do comunicado encarnado surge quando o Benfica afirma não poder “pactuar com acusações falsas e despropositadas”, classificando o tom do Avanca como difamatório. Esta escolha de palavras não é inocente e revela irritação, mas também uma estratégia clara: fechar a porta a leituras emocionais e recentrar o debate no plano regulamentar.


Há aqui uma questão incómoda que muitos evitam: é mais fácil acusar o adversário do que assumir falhas internas. Quando um recinto não cumpre requisitos mínimos, a responsabilidade não é do visitante — muito menos de um clube que apenas exige igualdade de condições e segurança para os seus atletas.


O problema maior: pavilhões sem condições no andebol português


Este caso não é exceção, é sintoma. O andebol português continua refém de infraestruturas precárias, sobretudo fora dos grandes centros. Pisos degradados, falta de manutenção e critérios de licenciamento pouco exigentes criam um terreno fértil para polémicas recorrentes.


Enquanto estas situações forem tratadas como episódios pontuais e não como falhas sistémicas, a modalidade continuará vulnerável a conflitos institucionais e jogos decididos fora das quatro linhas — algo que todos dizem rejeitar, mas poucos combatem seriamente.


Vitória administrativa: justiça desportiva ou derrota do sistema?


A vitória administrativa do Benfica não deve ser lida como um triunfo desportivo, mas como uma derrota coletiva do sistema. Nenhum clube ganha verdadeiramente quando um jogo não se realiza. No entanto, o regulamento existe precisamente para estes cenários e ignorá-lo seria abrir espaço à arbitrariedade.


Criticar a aplicação das regras apenas quando o resultado não convém é intelectualmente desonesto. Se o piso não oferece condições, o jogo não se realiza. Simples. Tudo o resto é ruído.


Caminho aberto para os oitavos de final


Com a decisão da Federação, o Benfica segue em frente na competição e vai defrontar o Carvalhos, equipa da segunda divisão, nos oitavos de final da Taça de Portugal. Um adversário teoricamente acessível, mas que exige seriedade — sobretudo numa prova onde o favoritismo já caiu várias vezes por excesso de confiança.


Nos quartos de final já estão confirmadas equipas de peso como Sporting, Póvoa, Águas Santas, Belenenses, Marítimo e Vitória de Guimarães, o que antecipa uma fase decisiva altamente competitiva.


A pressão sobre o Benfica: jejum desde 2018


Há um dado que não pode ser ignorado: o Benfica não conquista a Taça de Portugal de andebol desde 2018. Para um clube com a dimensão, investimento e ambição das águias, este jejum pesa — e muito.


Cada edição que passa sem o troféu aumenta a pressão interna e externa. A polémica com o Avanca, embora lateral, surge num contexto em que o Benfica já não tem margem para tropeços, sejam eles dentro ou fora de campo.


Conclusão: menos vitimização, mais exigência


Este episódio deixa uma lição clara. No andebol português, enquanto se preferir o discurso de vítima à resolução de problemas concretos, situações como esta vão repetir-se. O Benfica pode ser antipático para alguns, mas não inventou regras nem decidiu sozinho.


Se há algo a criticar, não é a aplicação do regulamento, mas o facto de, em 2026, ainda existirem pavilhões incapazes de garantir condições mínimas para uma eliminatória da Taça de Portugal.


Tudo o resto é barulho. E barulho não ganha jogos — nem títulos.

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