Enquanto muitos falam, Matilde Vaz age: FC Porto aposta finalmente na base

 


Numa altura em que o debate sobre o crescimento do futebol feminino em Portugal ganha cada vez mais força, o FC Porto deu um passo simbólico, mas estratégico, ao marcar presença numa iniciativa promovida pela AF Porto. A protagonista foi Matilde Vaz, jovem centrocampista de 18 anos, que representou o clube numa manhã dedicada à promoção da atividade física junto de 250 crianças de cinco concelhos do distrito.


O evento, realizado na Arena Liga Portugal, não foi apenas mais uma ação institucional. Foi um sinal claro de posicionamento: o FC Porto quer estar associado ao desenvolvimento do futebol feminino e à formação de novas gerações de praticantes.


FC Porto e a responsabilidade social no futebol


A presença de Matilde Vaz num encontro com crianças pode parecer um gesto simples, mas revela uma estratégia mais ampla de responsabilidade social. Num contexto em que o sedentarismo infantil cresce, impulsionado pelo excesso de tempo passado em frente a ecrãs, iniciativas como esta tornam-se cada vez mais relevantes.


A AF Porto assumiu esse desafio há cerca de três anos, ao lançar um projeto destinado a incentivar a prática desportiva. Segundo o presidente José Neves, nesse período já foram motivadas 7.500 crianças a integrarem atividades físicas regulares. O número é expressivo e mostra que há impacto real quando existe compromisso institucional.


Ao associar-se a esta ação, o FC Porto não só reforça a sua imagem como clube atento às causas sociais, como também investe na base do seu próprio futuro: a formação de atletas e adeptos.


Matilde Vaz: referência para uma nova geração


Com apenas 18 anos, Matilde Vaz assume um papel que vai além das quatro linhas. A médio prazo, poderá afirmar-se como uma das caras do futebol feminino azul e branco, mas já hoje é vista como uma referência por muitas jovens.


A própria atleta sublinhou o orgulho em representar o clube e em perceber o entusiasmo das crianças, especialmente das raparigas. O brilho no olhar das mais novas, segundo relatou, é evidente quando interagem com jogadoras profissionais.


Este ponto é crucial. A identificação é um dos motores mais poderosos na formação de novos talentos. Quando uma menina vê alguém com quem se identifica a jogar futebol ao mais alto nível, a barreira mental começa a cair. O que antes parecia improvável passa a ser possível.


O crescimento do futebol feminino depende precisamente disto: exemplos visíveis, próximos e acessíveis.


Futebol feminino em Portugal: crescimento sustentado ou impulso momentâneo?


O discurso institucional aponta para uma prioridade clara: investir no futebol feminino. José Neves foi direto ao afirmar que “é no futebol feminino que devemos crescer”. A frase é forte e revela consciência estratégica.


Nos últimos anos, Portugal tem assistido a um aumento significativo no número de atletas federadas, equipas formadas e competições estruturadas. A visibilidade mediática também cresceu, impulsionada por participações internacionais e pela profissionalização gradual das estruturas.


Contudo, o crescimento ainda enfrenta desafios:

Diferenças salariais significativas;

Infraestruturas desiguais;

Menor exposição mediática em comparação com o futebol masculino;

Necessidade de maior investimento em formação de base.


A aposta em eventos escolares é uma das respostas possíveis. Trabalhar na base significa garantir continuidade. Sem renovação geracional, qualquer crescimento torna-se artificial e insustentável.


A era digital e o afastamento do desporto


Um dos pontos mais relevantes destacados pela AF Porto foi o impacto da era digital no afastamento das crianças do desporto. Tablets, smartphones e videojogos ocupam hoje uma fatia considerável do tempo livre infantil.


O problema não é apenas físico. A prática desportiva desenvolve competências sociais, trabalho em equipa, disciplina e resiliência. Ao reduzir o contacto com estas experiências, perde-se mais do que condição física — perde-se formação de caráter.


Projetos que levam atletas às escolas funcionam como gatilhos emocionais. Ver uma jogadora profissional ao vivo, participar num jogo simples como o das tabelas e sentir-se parte de um grupo pode ser o empurrão que faltava para começar a treinar num clube local.


Se 7.500 crianças foram convencidas a praticar desporto em três anos, isso demonstra que há margem de crescimento — mas também que o problema é real.


FC Porto e a afirmação no futebol feminino


Historicamente mais associado ao futebol masculino, o FC Porto tem vindo a reforçar a sua presença no futebol feminino. A participação em ações sociais, como esta promovida pela AF Porto, integra uma estratégia mais ampla de consolidação.


Para competir seriamente nesta vertente, o clube precisa de:

1. Investimento contínuo em formação;

2. Estruturas técnicas especializadas;

3. Estratégia de comunicação própria para o futebol feminino;

4. Ligação consistente às escolas e comunidades.


A presença de Matilde Vaz nestes eventos não deve ser pontual. A construção de uma identidade forte no futebol feminino exige regularidade, proximidade e compromisso visível.


O impacto simbólico de uma manhã de futebol


À primeira vista, trata-se apenas de uma manhã bem passada, com jogos e sorrisos. Mas no contexto certo, cada ação destas carrega significado estratégico.


Quando uma criança regressa a casa a dizer que quer jogar futebol porque conheceu uma atleta do FC Porto, criou-se um potencial novo ciclo. Esse ciclo pode transformar-se num treino, depois numa inscrição federada e, quem sabe, numa carreira.


O futebol feminino cresce assim: passo a passo, campo a campo, escola a escola.


Entre a emoção e a estratégia


Há sempre o risco de estas iniciativas se tornarem meramente simbólicas. O desafio está em garantir continuidade. Se o entusiasmo gerado não for acompanhado por oportunidades concretas — clubes acessíveis, treinos estruturados, acompanhamento técnico — o impacto dilui-se.


Por isso, a responsabilidade não termina no evento. Ela começa ali.


O FC Porto e a AF Porto têm agora a oportunidade de transformar esta mobilização pontual numa estratégia consistente de desenvolvimento. Se o objetivo é realmente crescer no futebol feminino, é preciso medir resultados, acompanhar trajetórias e criar pontes permanentes com as escolas.


Conclusão: um passo certo, mas apenas o início


A participação de Matilde Vaz no encontro organizado pela AF Porto simboliza algo maior do que uma simples ação promocional. Representa o reconhecimento de que o futuro do futebol passa pela inclusão, pela formação de base e pela valorização do futebol feminino.


O entusiasmo das crianças, especialmente das raparigas, mostra que há procura. Há vontade. Há talento.


Agora, a questão decisiva é esta: o sistema está preparado para sustentar esse crescimento?


Se o compromisso for real e contínuo, o futebol feminino em Portugal pode entrar numa fase de consolidação estrutural. Caso contrário, ficará dependente de momentos isolados de entusiasmo.


Para já, o sinal é positivo. O FC Porto posiciona-se do lado certo da história — o lado que investe na formação, na igualdade e no futuro do desporto.

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