Mourinho aponta falha gritante no Benfica após Alverca e deixa aviso claro: “Jogamos bem, mas marcamos pouco”

 


José Mourinho voltou a ser José Mourinho. Sem rodeios, sem frases feitas para agradar, sem se esconder atrás da arbitragem. Após a vitória do Benfica frente ao Alverca, o treinador português apresentou uma leitura crua do jogo, elogiou a atitude da equipa, destacou Anísio Cabral com uma comparação bombástica a Didier Drogba… mas deixou um alerta que não pode ser ignorado: este Benfica cria muito, mas falha demasiado.


A conferência de imprensa foi tudo menos protocolar. Houve elogios, houve críticas internas, houve visão estratégica e houve, acima de tudo, uma mensagem clara: o problema das Águias não é jogar — é matar jogos.


Mourinho e a cultura do “até ao fim vamos”


Mourinho começou por sublinhar algo que, para ele, é inegociável: mentalidade. O técnico assumiu que a equipa reflete uma fusão entre a cultura histórica do Benfica e a sua própria identidade competitiva.


“Até ao fim, vamos; até ser matematicamente possível, vamos; até haver um segundo de jogo, vamos.”


Não é retórica. É doutrina. E foi isso que, segundo o treinador, se viu sobretudo na segunda parte, quando o Benfica empurrou o Alverca para trás com uma avalanche ofensiva. O adversário saiu derrotado, mas não humilhado — e Mourinho fez questão de reconhecer isso.


Aqui há um ponto importante: Mourinho respeita quem joga futebol, não quem queima tempo. O Alverca tentou, criou perigo na primeira parte e pagou o preço depois. Para o técnico, isso dignifica a competição.


A vitória valeu, mas o desperdício preocupa


Apesar dos três pontos, Mourinho não escondeu frustração. E aqui está o cerne do problema.


“Jogamos bem, criamos muitos, mas marcamos pouco. Como é possível falhar tanto?”


Este não é um desabafo emocional. É um diagnóstico repetido. O Benfica domina jogos, constrói oportunidades, encosta adversários às cordas… mas falha na definição. E isso, em jogos grandes, paga-se caro.


A equipa controla, mas não mata. E Mourinho deixou claro que não dorme bem com esse cenário, porque sabe que o futebol de alto nível não perdoa desperdício.


Anísio Cabral: golo, instinto e um alerta de gestão


Anísio Cabral voltou a marcar — e voltou a fazê-lo no primeiro toque na bola. Para Mourinho, foi simbólico. Um momento perfeito para o jogador e decisivo para a equipa.


Mas quem esperava hype descontrolado levou um banho de água fria. Mourinho foi claro: calma, trabalho e proteção.


O treinador revelou até uma conversa rápida com a mãe do jogador, sublinhando a estrutura familiar sólida. Isto não é detalhe irrelevante. Para Mourinho, talento sem estabilidade emocional é um risco.


“Vamos ver se entre o Benfica e a família conseguimos protegê-lo do mundo do futebol.”


Aqui está a diferença entre lançar um miúdo e formar um jogador.


Youth League, rotação e uma mensagem dura aos adeptos


Mourinho foi direto: Anísio ainda vai jogar na Youth League. E isso não é castigo, é estratégia. O treinador deixou claro que a gestão física e mental dos jovens será prioridade — algo que nem sempre é bem compreendido pelos adeptos.


O mesmo aconteceu com outros jovens como Banjaqui e José Neto, que precisaram de descanso mental. Este detalhe revela algo importante: Mourinho está a pensar época inteira, não apenas no próximo jogo.


Além disso, deixou elogios a Kevin Pinto, apontando-o como futuro jogador de Primeira Liga. Não é promessa vazia — é leitura de potencial.


O verdadeiro problema: falta de jogadores “gulosos”


Quando questionado sobre o que falta ao Benfica para controlar melhor os jogos, Mourinho não hesitou:


“Fazer golos.”


Mais do que isso, explicou o problema em profundidade. Para ele, falta ambição ofensiva a alguns jogadores. Falta fome de golo.


O exemplo de Schjelderup foi claro: um golo simples, um “tapinha”, mas com mentalidade certa — seguir a jogada, acreditar, querer marcar. Mourinho foi duro:


“Precisamos de jogadores gulosos. Temos jogadores que não gostam do doce.”


E depois veio o golpe final: números. Jogadores ofensivos têm de atingir dois dígitos de golos por época. Menos do que isso não chega. E aqui não há desculpas técnicas ou estéticas que salvem.


Anísio e a comparação com Drogba: exagero ou visão?


Mourinho sabe que ia causar impacto. E assumiu.


“O Drogba.”


A comparação não é pelo jogo aéreo — ironicamente, Mourinho insistiu que esse não é o forte de Anísio, apesar dos golos de cabeça. A semelhança está noutros pontos: jogo de costas para a baliza, movimentos em profundidade, capacidade de remate rápido.


É uma comparação de potencial, não de estatuto. Quem não entende isso está a ouvir mal.


Mas Mourinho também deixou um aviso: há muito para melhorar. O talento está lá, o teto depende do trabalho.


Arbitragem? Mourinho não entra nesse jogo


Sobre os potenciais penáltis, Mourinho foi cauteloso. Disse que ainda não viu os lances e recusou fazer “figura de urso”. Ainda assim, deixou uma farpa subtil sobre a inconsistência dos critérios.


Não fez escândalo. Não desviou o foco. Para ele, o problema do Benfica não está aí.


Rafa vs Sudakov: soluções diferentes, não rivais


A última análise foi tática. Rafa oferece profundidade, ataque ao espaço, chegada à finalização. Sudakov dá critério, continuidade e jogo interior.


Mourinho não escolhe um — quer ambos. E ainda acrescentou Lukebakio ao leque de opções, sublinhando algo essencial: equipas grandes precisam de soluções diferentes, não de titulares indiscutíveis.


Conclusão: Benfica cresce, mas tem um limite claro


O Benfica de Mourinho joga bem. É intenso, dominante e mentalmente forte. Mas enquanto continuar a falhar tantas oportunidades, viverá sempre no fio da navalha.


Anísio Cabral surge como resposta parcial, não como salvação milagrosa. A mensagem está dada: quem joga na frente tem de marcar.


O resto é conversa.

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