A imprensa desportiva tem sido clara: há uma transformação em curso no Benfica e dois nomes surgem repetidamente como símbolos dessa mudança – Andreas Schjelderup e Gianluca Prestianni. O que parecia um inverno de despedidas iminentes converteu-se numa primavera de afirmação. Sob o comando técnico de José Mourinho, a dupla ganhou protagonismo, confiança e, sobretudo, responsabilidade.
Mas vamos separar entusiasmo de realidade. Estão realmente a revolucionar o futebol encarnado ou são apenas beneficiários de um novo contexto tático? A resposta não é simples — e exige análise fria.
A mão de José Mourinho na evolução dos jovens do Benfica
Desde que assumiu o comando técnico, José Mourinho deixou um recado implícito: talento não basta. Intensidade, compromisso tático e capacidade de decisão sob pressão são inegociáveis. E é precisamente aí que Schjelderup e Prestianni têm sido avaliados.
O treinador português insiste numa pressão alta agressiva ainda no meio-campo adversário, um dos pilares do seu modelo atual. Não se trata apenas de correr. Trata-se de saber quando pressionar, fechar linhas de passe e obrigar o erro. Segundo análises recentes da imprensa, os dois extremos evoluíram significativamente nesse capítulo.
Prestianni, mais explosivo, tem mostrado maior maturidade na leitura dos momentos de pressão. Já Schjelderup, inicialmente visto como um jogador mais técnico do que combativo, parece ter entendido que sem intensidade não há lugar num Benfica moldado por Mourinho.
Isto não é acaso. É método.
Schjelderup: da porta de saída à afirmação europeia
O caso de Andreas Schjelderup é paradigmático. Durante o mercado de inverno, o extremo norueguês esteve muito perto de sair. Falava-se em empréstimo, falava-se em falta de espaço. A realidade é que o jogador ainda não tinha convencido totalmente.
Mas o futebol vive de momentos. E a exibição frente ao Real Madrid foi um ponto de viragem. Ali, Schjelderup mostrou personalidade, capacidade de assumir o jogo e frieza em decisões-chave. Não foi apenas uma boa atuação; foi uma resposta direta às dúvidas.
Os números confirmam uma época sólida:
• 28 jogos oficiais
• 15 na Liga Portugal Betclic
• 8 na Liga dos Campeões
• 4 na Taça de Portugal
• 1 na Supertaça
• 5 golos e 3 assistências em 1.384 minutos
Para um jogador avaliado em 14 milhões de euros e ainda em processo de consolidação, os dados são respeitáveis. Mas atenção: não são extraordinários. O crescimento é evidente, mas ainda há margem — e obrigação — de fazer mais.
Mourinho já deixou claro que a finalização precisa de afinação. E aqui está o ponto crítico. Um extremo moderno no futebol europeu de topo precisa de números mais impactantes. Cinco golos não chegam para quem quer ser decisivo numa equipa que luta por títulos internos e relevância europeia.
Prestianni: irreverência com disciplina
Gianluca Prestianni representa algo diferente. É intensidade quase permanente, drible curto, capacidade de acelerar o jogo em espaços reduzidos. Mas, como qualquer jovem talento sul-americano, precisou de enquadramento tático.
Sob Mourinho, o argentino tem mostrado evolução no posicionamento defensivo e na tomada de decisão. Já não é apenas o jogador que parte para o um contra um de forma impulsiva; há mais critério.
A grande diferença está na mentalidade. Enquanto Schjelderup teve de provar que merecia ficar, Prestianni parece jogar com a convicção de quem quer conquistar o lugar. Essa fome competitiva encaixa perfeitamente no perfil que Mourinho aprecia.
Mas sejamos honestos: ainda não são jogadores totalmente decisivos. São promessas em aceleração.
A pressão alta como identidade do novo Benfica
Um dos aspetos mais interessantes nesta fase é a forma como o Benfica tem recuperado bolas em zonas adiantadas. A pressão coordenada dos extremos tornou-se arma estratégica.
Schjelderup e Prestianni são peças fundamentais nesse mecanismo:
• Fecham laterais adversários
• Forçam passes longos precipitados
• Criam transições rápidas em zonas perigosas
Este modelo aumenta o volume ofensivo e reduz o tempo de reação do adversário. Contudo, exige intensidade física e concentração tática constante. Não há espaço para desligamentos.
Se mantiverem esta evolução, podem tornar-se extremos completos — não apenas artistas da bola, mas jogadores de equipa.
O risco de euforia precoce
Aqui é preciso travar o discurso triunfalista. O Benfica já viveu outros momentos em que jovens talentos foram elevados demasiado cedo ao estatuto de salvadores.
O futebol é implacável. Uma boa sequência não garante consistência anual. A verdadeira prova será manter rendimento sob pressão competitiva, especialmente em fases decisivas da Liga Portugal e da Liga dos Campeões.
Além disso, a valorização de mercado pode tornar-se faca de dois gumes. Se continuarem a crescer, o assédio externo será inevitável. E o Benfica, historicamente, vende quando a proposta é irrecusável.
A questão estratégica é simples: o clube quer construir um ciclo sustentado ou preparar novas mais-valias financeiras?
Mourinho como catalisador, não como milagreiro
É tentador atribuir toda a evolução ao treinador português. Sem dúvida, o impacto de José Mourinho é visível na organização coletiva e na exigência competitiva.
Mas a transformação só acontece porque os jogadores responderam. Treinador nenhum desenvolve talento sem predisposição do atleta.
O mérito é partilhado.
Se algo distingue esta fase é a clareza de critérios. Quem cumpre, joga. Quem não entrega intensidade e compromisso, fica para trás. Schjelderup e Prestianni perceberam isso rapidamente.
O que falta para o próximo nível?
Se quisermos falar seriamente de consolidação europeia, há três aspetos que ambos precisam de melhorar:
1. Eficiência na finalização – Converter mais das oportunidades criadas.
2. Regularidade estatística – Aumentar média de golos e assistências por jogo.
3. Decisão nos últimos 30 metros – Saber quando acelerar e quando temporizar.
Sem isso, continuarão a ser jogadores promissores, mas não decisivos.
O Benfica precisa de protagonistas que resolvam jogos grandes, não apenas que dinamizem o coletivo.
Uma nova dinâmica ofensiva nas águias
Apesar das reservas, é inegável que há uma nova energia no ataque encarnado. A mobilidade dos extremos permite maior fluidez posicional. Há mais trocas, mais diagonais interiores e maior imprevisibilidade.
Esse dinamismo tem sido apontado pela imprensa como um dos sinais mais claros da evolução consistente da equipa.
Schjelderup traz criatividade controlada. Prestianni acrescenta agressividade vertical. Juntos, oferecem alternativas que o Benfica não explorava com tanta frequência anteriormente.
Mas revolução é palavra forte. Ainda estão a construir credibilidade.
Conclusão: promessa em consolidação ou ilusão momentânea?
A narrativa é sedutora: dois jovens quase descartados transformam-se em peças-chave sob a orientação de um treinador experiente. Mas o futebol exige frieza analítica.
Sim, há evolução.
Sim, há impacto.
Sim, há sinais claros de crescimento tático e competitivo.
Contudo, ainda não há domínio estatístico nem influência constante em jogos decisivos.
Se mantiverem a trajetória atual, Schjelderup e Prestianni podem tornar-se referências do novo ciclo do Benfica. Se relaxarem, voltarão rapidamente à condição de talentos intermitentes.
O mérito até aqui é real. A consolidação, porém, ainda está em curso.
E no futebol de alta exigência, potencial sem consistência é apenas expectativa.

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