Regresso inesperado a Lisboa levanta suspeitas — mas não há chuteiras envolvidas

 


O regresso de Jan Vertonghen a Lisboa apanhou muitos adeptos de surpresa. O antigo defesa-central do Benfica voltou a pisar o relvado do Estádio da Luz, mas desta vez sem chuteiras, sem braçadeira de capitão e, sobretudo, sem qualquer ligação ao futebol competitivo. O motivo é outro — e revela uma tendência cada vez mais forte no futebol europeu: a profissionalização da transição de carreira.


Vertonghen, que representou o Benfica entre 2020 e 2022, partilhou nas redes sociais vários momentos da sua visita à capital portuguesa. A nostalgia foi inevitável. Mas, ao contrário do que alguns poderiam supor, não há qualquer regresso aos relvados em perspetiva. O belga está em Lisboa no âmbito do Mestrado Executivo para Jogadores Internacionais (MIP) da UEFA, um programa de formação avançada direcionado a ex-jogadores e figuras do futebol.


Formação em vez de competição: o novo campo de batalha


Depois de anunciar o fim da carreira no final da última temporada, Vertonghen decidiu não seguir o caminho mais previsível. Nada de comentário televisivo imediato, nada de cargo simbólico num clube. Optou por formação estruturada.


O MIP da UEFA é um programa exigente que combina módulos académicos com experiências práticas em vários países europeus. A edição 2025-2027 reúne nomes de peso: Bruno AlvesSimon KjærIvan Rakitic e o antigo árbitro Cüneyt Çakır fazem parte da turma.


Não é um detalhe irrelevante. Estamos a falar de profissionais que jogaram finais europeias, disputaram Mundiais e lideraram balneários de elite. A mensagem é clara: experiência não substitui preparação estratégica.


O futebol moderno já não tolera improvisação no pós-carreira. Quem não se qualifica fica para trás.


O simbolismo do regresso ao Estádio da Luz


A visita ao Estádio da Luz teve um peso emocional evidente. Vertonghen realizou 88 jogos com a camisola do Sport Lisboa e Benfica, marcou um golo, fez duas assistências e conquistou um Campeonato Nacional.


Foi uma passagem sólida, marcada por liderança, experiência internacional e consistência defensiva. Sob orientação de Roger Schmidt, integrou uma fase de renovação competitiva do clube.


Mas há um ponto que merece análise fria: o legado de Vertonghen em Lisboa não foi espetacular, foi profissional. E talvez seja precisamente isso que explica a sua escolha atual. O belga nunca viveu do marketing ou do ruído. Sempre construiu a carreira com método.


Agora faz o mesmo fora das quatro linhas.


A tendência que muitos ignoram


Há um padrão a emergir entre ex-jogadores de topo: formação em gestão, liderança e governação desportiva. O futebol tornou-se uma indústria multimilionária, complexa e altamente regulada. Dirigir um clube ou assumir cargos na estrutura europeia exige muito mais do que carisma.


O MIP da UEFA prepara estes profissionais para funções executivas, estratégicas e institucionais. Estamos a falar de governance, sustentabilidade financeira, negociação internacional e gestão de crise.


Quem olha para este regresso a Lisboa apenas com nostalgia está a perder o essencial: Vertonghen não voltou para recordar o passado. Voltou para construir poder futuro.


O elogio a Lukebakio e a leitura estratégica do mercado


Durante a estadia em Portugal, Vertonghen elogiou a contratação de Dodi Lukebakio, demonstrando que continua atento ao mercado e às dinâmicas competitivas. Não é comentário inocente.


Ex-jogadores que transitam para funções estratégicas começam a posicionar-se como analistas, conselheiros ou decisores. Avaliar talento, entender encaixes táticos e antecipar valorização de ativos é competência central no futebol moderno.


Vertonghen não está apenas a estudar teoria. Está a manter-se relevante.


O erro que muitos ex-jogadores cometem


Há uma verdade incómoda no futebol: muitos atletas subestimam o pós-carreira. Vivem anos dentro de uma bolha altamente estruturada e acreditam que o nome basta. Não basta.


Sem formação, sem visão estratégica e sem rede institucional, o risco de irrelevância é alto. A indústria não espera por ninguém.


Vertonghen parece ter entendido isso cedo. Em vez de se acomodar ao estatuto de “ex-capitão respeitado”, decidiu investir em credibilidade técnica.


Lisboa como ponto de viragem


A passagem do curso por Portugal não é apenas logística. É simbólica. O país tem sido palco de crescente influência na formação de dirigentes e técnicos. Clubes como o Benfica tornaram-se referências na formação de talento e gestão de ativos.


O regresso de Vertonghen à Luz, agora como aluno de um programa executivo, representa uma inversão interessante: de ativo desportivo a potencial decisor estratégico.


E isso levanta uma questão maior: quantos ex-jogadores estão realmente preparados para assumir cargos de liderança no futebol europeu nos próximos 10 anos?


Poucos.


Conclusão: nostalgia vende, estratégia constrói


As imagens no Estádio da Luz emocionaram adeptos. Mas emoção não constrói carreiras. Estratégia constrói.


Jan Vertonghen está a fazer o que muitos evitam: preparar-se seriamente para o futuro. Num ecossistema competitivo como o do futebol europeu, onde decisões envolvem milhões e reputações, formação executiva deixou de ser luxo — é requisito.


O regresso a Lisboa não foi um gesto romântico. Foi um movimento calculado.


E quem acha que isto é apenas mais uma visita de cortesia não está a perceber o jogo que se joga fora das quatro linhas.

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