O plano estava definido, o treinador tinha sido claro e o contexto parecia favorável. Daniel Banjaqui, lateral-direito de apenas 17 anos, estava preparado para repetir a titularidade pelo Benfica frente ao Alverca. José Mourinho tinha assumido publicamente que Amar Dedić não iria a jogo, numa clara gestão física do internacional bósnio, e tudo apontava para a continuidade do jovem campeão do Mundo sub-17. No entanto, um problema de última hora alterou o guião.
Sintomas gripais afastaram o camisola 56 da ficha de jogo e forçaram o técnico encarnado a improvisar num encontro que acabou com vitória suada das águias por 2-1 frente aos ribatejanos. Um episódio aparentemente banal, mas que diz muito sobre o momento do plantel, a aposta na formação e os riscos que o Benfica começa a assumir nesta fase da época.
Daniel Banjaqui: confiança total antes do contratempo
Segundo informações avançadas pelo jornal Record, Daniel Banjaqui era o titular escolhido para o lado direito da defesa. A decisão não era simbólica nem fruto de necessidade extrema: era uma escolha técnica. Mourinho tinha gostado da resposta do jovem no jogo anterior frente ao Tondela e via no lateral uma opção válida para manter estabilidade defensiva e saída limpa de bola.
Aqui convém ser claro: quando um treinador como José Mourinho confirma publicamente a ausência de um jogador experiente como Dedić e aponta um jovem de 17 anos como solução natural, isso não é caridade. É convicção. O Benfica não coloca miúdos em campo por marketing; fá-lo quando acredita que eles aguentam o contexto competitivo.
Banjaqui vinha numa sequência exigente de jogos, mas claramente em alta. A confiança estava lá, o ritmo também. O problema foi físico — e aqui começa o primeiro sinal de alerta.
Sobrecarga competitiva e o risco escondido
O jovem lateral não só tinha sido titular frente ao Tondela como, a meio da semana, alinhou pela equipa de juniores na UEFA Youth League, ajudando o Benfica a eliminar o Slavia Praga. Esse encontro foi disputado sob um temporal intenso, com condições climatéricas adversas, esforço elevado e pouco tempo de recuperação.
A ligação entre esse jogo e os sintomas gripais não pode ser ignorada. O Benfica está a esticar a corda com alguns dos seus talentos mais promissores. Não é gestão criminosa, mas também não é inocente. Um atleta de 17 anos pode aguentar muito, mas não é imune ao desgaste físico e imunológico.
Aqui entra a crítica necessária: se o clube quer apostar a sério na formação, tem de ser igualmente rigoroso na proteção desses ativos. Banjaqui vale hoje cerca de 1 milhão de euros, mas isso é irrelevante. O que está em causa é o potencial de crescimento e não a cotação atual.
José Mourinho improvisa: Sidny Cabral como solução de recurso
Com Banjaqui fora de combate à última hora, Mourinho teve de improvisar. A escolha recaiu sobre Sidny Cabral, jogador cabo-verdiano conhecido pela sua polivalência. Não é lateral de origem, não oferece as mesmas rotinas defensivas, mas entrega compromisso e capacidade física.
A decisão foi pragmática, não brilhante. Sidny cumpriu, mas o Benfica ressentiu-se. A equipa perdeu alguma profundidade no corredor direito e revelou dificuldades na organização defensiva, sobretudo nos momentos de transição. O Alverca percebeu isso cedo e explorou o espaço.
Este tipo de improviso não pode tornar-se hábito. Funciona uma vez, duas no máximo. A longo prazo, expõe fragilidades estruturais do plantel.
Vitória sofrida frente ao Alverca expõe limitações
O Benfica venceu, mas não convenceu. Os golos de Andreas Schjelderup e Anísio Cabral garantiram os três pontos, mas a exibição deixou dúvidas. A equipa teve de suar, correu riscos desnecessários e mostrou que, sem algumas peças-chave, o equilíbrio desaparece rapidamente.
Não se trata de dramatizar uma vitória. Trata-se de perceber que este tipo de jogos são termómetros internos. Se contra o Alverca já há dificuldades quando surgem imprevistos, o que acontecerá em contextos mais exigentes?
Mourinho sabe disso. O discurso público pode ser contido, mas as decisões falam por si.
Daniel Banjaqui em números: impacto real, não hype
Na presente temporada, Daniel Banjaqui soma 19 jogos oficiais pelo Benfica, distribuídos por várias competições:
• 8 na Liga Portugal Meu Super
• 3 na UEFA Youth League
• 3 na Liga Revelação
• 2 na Liga Portugal Betclic
• 1 na Taça de Portugal
Em 1.139 minutos, registou 1 golo e 1 assistência. Números modestos à primeira vista, mas completamente normais para um lateral jovem, ainda mais num contexto competitivo exigente. O valor está na consistência, não nas estatísticas ofensivas.
O Benfica não está a criar uma estrela mediática; está a formar um jogador funcional, algo que escasseia no futebol moderno.
O que este episódio revela sobre o Benfica atual
A ausência de Banjaqui não é um drama isolado. É um sinal. O Benfica está a apostar nos jovens, mas fá-lo porque precisa, não apenas porque quer. A profundidade do plantel em certas posições é curta e a margem de erro é mínima.
José Mourinho gere como pode, improvisa quando tem de improvisar e protege quem precisa de proteção. Mas a verdade é esta: sem planeamento cirúrgico, a aposta na formação pode virar risco desnecessário.
Banjaqui vai voltar. Provavelmente ao onze. A questão é outra: o Benfica está preparado para lidar com estes imprevistos sem perder identidade e controlo do jogo?
Essa resposta ainda não é clara. E é aí que mora o verdadeiro problema.

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