A derrota do Benfica frente ao Águas Santas (28-26), na 18.ª jornada do Campeonato Nacional de andebol, não é apenas mais um resultado negativo numa época longa. É um sinal de alerta claro. Num campeonato onde cada ponto pesa como chumbo na fase decisiva, as águias deixam escapar terreno e oferecem ao FC Porto a possibilidade real de as empurrar para o terceiro lugar da tabela.
Depois da polémica diante da Artística de Avanca, esperava-se uma resposta firme da equipa encarnada. O que se viu foi uma exibição intermitente, com momentos de qualidade, mas demasiadas falhas para quem ambiciona discutir o título com Sporting e FC Porto.
Águas Santas entrou sem medo e impôs o ritmo
O jogo no Pavilhão da Associação Atlética de Águas Santas começou com um sinal claro: os maiatos não estavam ali para cumprir calendário. Francisco Oliveira assumiu protagonismo na baliza, travando várias investidas iniciais do ataque encarnado. Ao mesmo tempo, Gabriel Conceição deu fluidez ao ataque da equipa da casa, explorando bem as fragilidades defensivas do Benfica.
O Águas Santas entrou melhor, mais intenso, mais ligado ao jogo. Num campeonato tão equilibrado como o andebol português, entrar desligado paga-se caro. O Benfica reagiu, é verdade, mas sempre numa lógica de resposta, nunca de controlo absoluto.
O empate a 13 bolas ao intervalo refletia equilíbrio no marcador, mas escondia uma nuance importante: o Águas Santas parecia mais confortável no seu plano de jogo do que o Benfica no seu.
Segunda parte expõe fragilidades encarnadas
Na etapa complementar, o encontro manteve-se disputado, mas houve um detalhe que fez a diferença: a consistência. O Águas Santas subiu o nível defensivo nos momentos-chave e soube gerir melhor o ritmo nos minutos finais. Já o Benfica revelou desinspiração ofensiva quando mais precisava de lucidez.
Reinier Taboada, com cinco golos, foi o melhor marcador das águias, mas faltou-lhe companhia regular nos momentos críticos. Do outro lado, Pedro Portela, com oito tentos, assumiu o papel de decisor, mostrando eficácia e frieza.
Nos últimos minutos, quando o jogo pedia maturidade competitiva, o Benfica precipitou decisões, falhou remates e perdeu duelos individuais determinantes. A defesa do Águas Santas esteve irrepreensível na reta final, fechando espaços e obrigando os encarnados a soluções forçadas.
E aqui reside o problema: uma equipa que quer ser campeã não pode depender apenas de momentos. Precisa de consistência emocional e tática.
Classificação do Campeonato Nacional complica-se
Com esta derrota — a sexta em 25 jogos oficiais na temporada — o Benfica mantém-se no segundo lugar do Campeonato Nacional de andebol, com 46 pontos. Contudo, a margem é frágil. O FC Porto soma 45 pontos e tem menos um jogo disputado, o que significa que pode ultrapassar as águias já na próxima jornada.
O Sporting lidera com 51 pontos e também tem um jogo em atraso, o que amplia ainda mais a pressão sobre a equipa da Luz.
Num cenário competitivo como o atual, a luta pelo título não permite deslizes recorrentes. Perder fora contra um adversário bem organizado é aceitável. Mas perder pontos quando os rivais diretos estão à espreita é estrategicamente perigoso.
O Benfica já não depende apenas de si para controlar a narrativa do campeonato.
Problema estrutural ou acidente de percurso?
A questão que se impõe é simples: esta derrota é um episódio isolado ou reflexo de algo mais profundo?
O Benfica tem qualidade individual. Tem experiência internacional. Tem um plantel que, em teoria, permite lutar pelo topo. Mas a irregularidade tem sido uma constante ao longo da época. Seis derrotas em 25 jogos oficiais não é um número dramático, mas é elevado para um candidato assumido ao título.
Há sinais de que a equipa perde intensidade competitiva em momentos-chave. E isso não se resolve apenas com talento. Resolve-se com liderança, disciplina tática e gestão emocional.
O jogo frente ao Águas Santas mostrou uma equipa que reage, mas que nem sempre impõe. Que corre atrás do resultado, mas nem sempre dita o ritmo. Num campeonato onde Sporting e FC Porto apresentam maior estabilidade exibicional, essa diferença pesa.
Impacto psicológico antes do duelo com o Marítimo
O calendário não abranda. O Benfica vira agora atenções para a 19.ª jornada do Campeonato Nacional, com receção ao Marítimo no Pavilhão Nº2 da Luz, agendada para as 15h00 do próximo sábado, dia 14 de fevereiro.
À partida, é um jogo onde o favoritismo encarnado é claro. Mas o contexto muda tudo. Entrar em campo sabendo que o FC Porto pode ultrapassar na classificação acrescenta pressão.
E pressão mal gerida transforma-se em ansiedade. Ansiedade gera precipitação. E precipitação custa pontos.
Se o Benfica quer manter-se vivo na luta pelo título, precisa de uma resposta imediata, convincente e autoritária. Não basta ganhar. É preciso convencer. É preciso recuperar confiança coletiva e mostrar que a derrota em Águas Santas foi apenas um tropeço.
Luta pelo título exige outro nível
O Campeonato Nacional de andebol está a tornar-se cada vez mais exigente. O equilíbrio aumenta, as equipas médias evoluem, e os detalhes fazem a diferença. Neste cenário, o Benfica não pode permitir-se exibições inconsistentes.
A luta pelo título envolve não apenas qualidade técnica, mas capacidade estratégica ao longo da temporada. Gerir plantel, manter intensidade defensiva e garantir eficácia ofensiva nos momentos críticos são fatores determinantes.
O Águas Santas provou que organização e crença podem superar favoritismos. O Benfica precisa agora de provar que tem maturidade para reagir.
Porque no topo, não vence apenas quem joga melhor. Vence quem erra menos.
E neste momento, as águias estão a errar demasiado para quem quer voar mais alto.

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